quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A PERSONALIDADE DO MÊS 

Professor Doutor Sobrinho Simões


Os nossos alunos do 11ºA foram convidados a elaborar as notas biográficas sobre a nossa personalidade do mês.

Publicamos o trabalho de alguns deles e que foi tão bem apresentado para iniciar a palestra proferida no dia 10 de outubro.


Nota biográfica breve e mais informal:
Professor Doutor Manuel Sobrinho Simões é cientista. Ele diz que não é um bom cientista, e que não é por falsa modéstia que o diz, mas por ser a verdade. É, seguramente, um dos maiores especialistas do mundo em cancro da tiróide
Se tiver de definir o que mais gosta de fazer é ensinar. Ensina pelo mundo fora, da China à Turquia, da Rússia aos Estados Unidos. Por isso, talvez se sinta mais confortável se pensarmos nele como um educador. Até porque formar uma escola, deixar uma escola foi, é, a ambição da sua vida. O IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto) é, por isso, o projeto da sua vida

Nota biográfica sobre percurso curricular:
No ano letivo de 1957- 1958- matriculou-se no liceu Alexandre Herculano 
Professor Doutor Manuel Sobrinho Simões completou a licenciatura na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1971. 
 Durante a licenciatura desenvolveu um grande interesse pelo domínio da Patologia, influenciado por alguns dos seus professores, como Daniel Serrão, tendo sido nomeado Assistente Eventual da disciplina de Anatomia Patológica, lugar que ocupou até  Setembro de 1974. 
Em paralelo com a componente escolar, foi campeão universitário de Pingue -pongue 
Anos mais tarde, em 1979, doutorou-se em Patologia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, apresentando a dissertação "Carcinoma oculto de Tireóide - Proposta de interpretação biopatológica" tendo sido aprovado por unanimidade, com distinção e louvor. .  
Entre Outubro de 1979 e Julho de 1980 fez o pós-doutoramento em Oslo, submetido ao tema "Microscopia Eletrónica", alcançando o reconhecimento internacional.
No regresso a Portugal, em Outubro de 1980, ascendeu ao cargo de Professor Associado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sendo mais tarde nomeado Professor Catedrático de Patologia. 
Em 1989 criou o IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto), unidade de investigação muito prestigiada que dirige  e foi classificada como excelente na última avaliação internacional levada a cabo pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e constitui um dos três laboratórios europeus acreditados pelo colégio americano de patologistas.  
É autor e co-autor de centenas de artigos editados em publicações nacionais e internacionais.

Em 2015 foi eleito o patologista mais influente do mundo pela revista britânica The Patologista e recebeu um voto de louvor do Conselho Geral da Universidade do Porto. 

Nota biográfica breve sobre vida pessoal   
 Manuel Sobrinho Simões gosta de passar os tempos livres com a família, muitas vezes em Moledo, onde possui uma casa de férias. 
Entre os seus passatempos favoritos contam-se a leitura, o cinema, programas televisivos como a série norte-americana House. M. D., passeios de bicicleta pelo Parque da Cidade. 

 Acompanha também o Futebol Clube do Porto,, agora, um pouco mais à distância do que durante a sua juventude, fase da vida em que era sócio e via regularmente jogos de várias modalidades. 

Textos ditos por Ana Cruz, Mariana Rocha e Daniel Talveira

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Bem-vindos ao novo ano letivo 2017/2018!
   
    O Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, outubro,  surge, este ano subordinado ao tema "Ligando Comunidades e Culturas".
    A nossa biblioteca iniciou as atividades deste mês com uma palestra proferida pelo cientista e professor português, o Professor Doutor Sobrinho Simões, no dia 10 de outubro. O tema abordado, inserido no currículo da Biologia, foi "O cancro, hereditariede e estilos de vida".
    Este encontro, organizado em parceria com o Departamento de Matemática e Ciências Experimentais, dirigiu-se a toda a comunidade, mas, em particular, aos nossos alunos dos cursos de Ciências e Tecnologias (11ºs A e B e 12ºA) e ao curso profissional de Técnico Auxiliar de Saúde (10ºH).
    A palestra, em forma de aula dialogada, constituiu um momento de grande valor científico em que os nossos alunos se embrenharam numa atitude verdadeiramente exemplar e a restante comunidade, professores, pais e funcionários,  se deixou maravilhar pelo saber transmitido e pelo grande poder de comunicação do nosso ilustre convidado.
   Expressamos aqui a nossa gratidão  pela enorme simpatia e disponibilidade com que o Professor Sobrinho Simões nos presenteou, dando-nos a honra da sua visita.



 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Encontro com Hemingway - 5


George Plimpton: Archibald MacLeish referiu um método seu de transmitir experiências ao leitor que afirmou ter desenvolvido enquanto fazia a cobertura de jogos de baseball nos seus dias do Kansas City Star. Tratava-se simplesmente do facto de que a experiência é transmitida através de pequenos detalhes, preservados no íntimo, que possuem o efeito de indicarem o todo ao consciencializar o leitor daquilo que só reconhecia no subconsciente.
Hemingway: Esse episódio é apócrifo. Nunca escrevi sobre baseball para o Star. O que o Archie estava a tentar recordar era a forma como eu procurava aprender em Chicago, por volta de 1920, e como buscava as coisas desapercebidas que geravam as emoções, tais como a maneira como um outfielder atirava a luva sem olhar para onde ia cair, o ranger da resina contra a tela sob a sola das sapatilhas de um lutador, a cor cinzenta da pele de Jack Blackburn logo a seguir a sair da agitação e outras coisas em que reparava do mesmo modo como um pintor realiza esboços. Reparávamos na estranha cor de Jack Blackburn e nos antigos cortes na pele e na forma como fazia rodopiar um homem antes de lhe conhecermos a história. Eram estas as coisas que nos tocavam antes de conhecermos a história.
George Plimpton: Alguma vez descreveu algum tipo de situação que não conhecesse pessoalmente?
Hemingway: Estranha pergunta. Por conhecimento pessoal quer dizer conhecimento carnal? Nesse caso, a resposta é afirmativa. Um escritor, se tiver algum valor, não descreve. Inventa ou cria a partir do seu próprio conhecimento, pessoal e impessoal, e, por vezes, parece possuir um conhecimento inexplicado que poderia vir de experiências raciais ou familiares esquecidas. Quem ensina o pombo-correio a voar como voa? Onde é que um touro de arena vai buscar a coragem ou um cão de caça o faro? Isto é uma elaboração ou uma versão condensada daquilo de que falávamos em Madrid quando não se podia confiar no meu julgamento.
George Plimpton: Até que ponto nos devemos afastar de uma experiência antes de podermos discorrer sobre ela em termos ficcionais? Os acidentes de avião em que se viu em envolvido em África, por exemplo?
Hemingway: Depende da experiência. Há uma parte de nós que a encara com alheamento desde o início. Outra parte sente-se muito envolvida. Não penso que haja qualquer regra acerca do tempo que devemos deixar passar. Depende do equilíbrio mental do indivíduo e dos seus poderes de recuperação. Sem dúvida que, para um escritor experiente, tem valor despenhar-se num avião que se incendeia. Aprende várias coisas muito rapidamente. Se lhe serão de algum modo úteis é condicionado pela sobrevivência. A sobrevivência, com honra, essa palavra importantíssima e antiquada, é igualmente importante e difícil para um escritor. Aqueles que duram pouco são sempre mais amados, uma vez que ninguém tem que os ver nas suas lutas longas, aborrecidas, implacáveis, sem tréguas, que travam num combate contra o tempo. Os que morrem ou os que se afastam cedo e com boas razões são preferidos por serem compreensíveis e humanos. O fracasso e a cobardia bem disfarçada são mais humanos e mais amados.
George Plimpton: Poder-me-ia dizer até que ponto acha que o escritor se deveria preocupar com os problemas sociopolíticos do seu tempo?
Hemingway: Todos temos a nossa consciência e não deveria haver regras acerca de como uma consciência deve funcionar. Toda a certeza que podemos ter relativamente a um escritor com uma intenção política é que, se o seu trabalho perdurar, a política terá que ser posta de lado quando o lermos. Muitos dos chamados escritores engajados mudam de visão política com frequência. Trata-se de algo muito estimulante para eles e para as suas críticas político-literárias. Por vezes, têm mesmo de reescrever os seus pontos de vista… e apressadamente. Talvez isso mereça respeito enquanto forma de busca da felicidade.
George Plimpton: A influência política de Ezra Pound no segregacionista Kasper teve algum efeito na sua convicção de que o poeta deveria ser libertado do Hospital de St. Elizabeth?
Hemingway: Não, de todo. Acredito que Ezra deveria ser libertado e autorizado a escrever poesia em Itália desde que se comprometesse a não ter uma ação política. Gostaria de ver Kasper encarcerado o mais rapidamente possível. Os grandes poetas não são necessariamente escoteiros ou chefes de escoteiros ou esplêndidas influências para a juventude. Alguns exemplos: Verlaine, Rimbaud, Shelley, Byron, Baudelaire, Proust, Gide não deveriam ter que ser aprisionados para que ninguém os imitasse na sua forma de pensar, nas suas maneiras ou na sua moralidade, por Kaspers locais. De certeza que, daqui a dez anos, este parágrafo vai precisar de uma nota de rodapé que explique quem Kasper era.
George Plimpton: Seria capaz de afirmar que o seu trabalho tem, por vezes, uma intenção didática?
Hemingway: A palavra “didática” tem sido mal usada e estragada. Morte ao Entardecer é um livro instrutivo.
George Plimpton: Já foi dito que um escritor não lida com mais do que uma ou duas ideias no seu trabalho. Diria que o seu trabalho reflete uma ou duas ideias?
Hemingway: Quem é que o disse? Parece demasiado simples. Talvez o homem que o disse tivesse apenas uma ou duas ideias.
George Plimpton: Bom, talvez fosse melhor dizê-lo da seguinte forma: Graham Greene afirmou que uma paixão dominante oferece a um conjunto de romances a unidade de um sistema. Penso que você mesmo disse que o sentido da injustiça conduz à grande escrita. Pensa que é importante que um escritor seja dominado dessa forma – por algum tipo de sentimento irresistível?
Hemingway: O sr. Greene tem facilidade em fazer afirmações que não têm a ver comigo. Ser-me-ia impossível generalizar sobre um conjunto de romances, um bando de galinholas ou outro bando de gansos. Mesmo assim, vou procurar generalizar. Um escritor que não tivesse uma noção da justiça e da injustiça estaria melhor a editar o livro de curso de uma escola para crianças sobredotadas do que a escrever romances. Outra generalização. Compreende, não são difíceis quando são suficientemente óbvias. A dádiva maior de um bom escritor é possuir um detector de balelas interno, à prova de choque. É o radar dos escritores e todos os grandes escritores o possuem.
George Plimpton: Uma última pergunta essencial: enquanto escritor criativo, qual pensa ser a função da sua arte? Porquê uma representação dos factos em vez dos próprios factos?
Hemingway: Onde está a confusão? A partir de coisas que aconteceram e de coisas existentes e de tudo o que se conhece e ainda do que não se pode conhecer, inventa-se algo que não é uma representação, mas sim algo de inteiramente novo, mais real do que o que quer que exista na realidade, e dá-se-lhe vida.E, se o fizermos suficientemente bem, dá-se-lhe imortalidade. É por isso que se escreve e por nada mais. Mas o que fazemos de todas as razões que ninguém conhece?

Tradução de Jorge Simões

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Prémios literários a granel


Para quem escreve e busca reconhecimento, segue um conjunto de prémios literários aos quais ainda vai a tempo de concorrer...
Três deles pedem a entrega dos originais até 31 de maio. São eles o Prémio Branquinho da Fonseca de literatura infantil e juvenil, o Prémio Matilde Rosa Araújo de conto infantil e o XVIII Concurso de Poesia Agostinho Gomes. Seguem os links dos respetivos regulamentos: Prémio Branquinho da Fonseca , Prémio Matilde Rosa Araújo e Concurso de Poesia Agostinho Gomes. .
Não deixem de tentar. Quem sabe não poderá ser o início de uma carreira promissora...

sexta-feira, 31 de março de 2017

Semana da Francofonia foi sucesso alargado

Mais uma vez se celebrou a francofonia no Agrupamento de Escolas do Castêlo da Maia. Esta atividade decorre na semana de 20 de março, dia da francofonia, em que se festeja a língua francesa,  falada nos cinco continentes em 57 países. São cerca de 270 milhões os falantes desta língua e o número de empresas francesas implantadas em Portugal tem vindo a crescer, havendo mais de 20 empresas no concelho da Maia. Destacam-se o grupo Auchan (Jumbo), a Decathlon e a Leroy Merlin.
Os alunos e docentes de Francês vestiram a escola de muitas cores alegres e brilhantes para receber os seus colegas, os encarregados de educação e os docentes do Agrupamento como outros de escolas dos arredores. Desde uma grande e interessante exposição de trabalhos realizados pelos alunos da língua até um concurso de gastronomia - "A melhor quiche" e "A melhor tarte" - que contou com a colaboração dos pais. Neste concurso, saíram vencedores o aluno Leandro Minguta, do 8º A (quiche), e Marta Silva, do 9º C (tarte). Decorreram ainda duas sessões de formação para docentes (proporcionadas pelas gentis palestrantes Dra. Lídia Marques e Dra. Carlota Madeira), um jantar francófono (da responsabilidade dos alunos e docentes do curso de Restauração do AECM, coordenados pelo chef paulo Correia) em que participou o grupo coral de alunos "Les Bleus" e duas sessões de cinema francês: Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu? e C'est quoi cette famille?
O grupo de docentes de Francês, constituído por Fátima Mondim, Isabel Maia, Jorge Simões e a subcoordenadora Elisabete Oliveira agradecem aos alunos e respetivos encarregados de educação, aos restantes docentes de Línguas que colaboraram na decoração dos espaços e à Direção do Agrupamento todo o apoio e carinho demonstrados ao longo destes quatro dias extraordinários. Vive le Français! 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Encontro com Hemingway - 4


George Plimpton: De que modo se desenvolve, na sua mente, a conceção de uma short story? O tema ou a trama ou alguma personagem sofrem alterações à medida que avança?
Hemingway: Às vezes conhecemos a história. Outras, inventamo-la à medida que avançamos e não fazemos ideia do que vai acontecer. Tudo muda à medida que avança. É isso que gera o movimento que gera a história. Por vezes, o movimento é de tal forma lento que parece não se mover. Mas há sempre mudança e movimento.
George Plimpton: Também acontece assim com o romance? Ou elabora um plano completo antes de começar a escrever e segue-o à risca?
Hemingway: Em Por Quem os Sinos Dobram, isso constituiu um problema diário. Eu sabia basicamente o que ia acontecer. Mas inventava o que acontecia todos os dias.
George Plimpton: As Verdes Colinas de África, Ter e Não Ter e Na Outra Margem, Entre as Árvores começaram todos como short stories e acabaram como romances? Em caso afirmativo, serão as formas de tal modo semelhantes que o autor pode passar de uma a outra sem rever totalmente a sua abordagem?
Hemingway: Não, não é verdade. As Verdes Colinas de África não é um romance mas constituiu uma tentativa de escrever um livro absolutamente real, com o fim de verificar se o estado de um país e os padrões das ações de um mês poderiam, se apresentados com verdade, competir com trabalhos ficcionais. Depois de o ter escrito, escrevi duas short stories, As Neves do Kilimanjaro e The Short Happy Life of Francis Macomber. Tratou-se de histórias que criei com base no conhecimento e experiência adquiridos no mesmo safari que eu procurara descrever realisticamente em As Verdes Colinas. Ter e Não Ter e Na Outra Margem, Entre as Árvores começaram ambos como short stories.
George Plimpton: Consegue passar facilmente de um projeto literário a outro ou continua até terminar o que começou?
Hemingway: O facto de estar, neste momento, a interromper trabalho sério para responder a estas perguntas demonstra que sou de tal modo estúpido que deveria ser severamente castigado. Não se preocupe. Hei de ser.
George Plimpton: Imagina-se a competir com outros escritores?
Hemingway: Nunca. Costumava escrever melhor do que alguns escritores já falecidos de cujo valor estava certo. Já há muito que tenho vindo apenas a procurar escrever o melhor que posso. Às vezes, tenho sorte e escrevo melhor do que posso.
George Plimpton: Acha que a força de um escritor diminui à medida que envelhece? Em As Verdes Colinas de África menciona que os escritores americanos, depois de uma certa idade, se transformam em avozinhos.
Hemingway: Não sei. Quem sabe bem o que faz deveria durar tanto quanto a sua cabeça permitisse. Nesse livro, se vir bem, verificará que estava a falar de literatura americana com um austríaco desprovido de humor que me estava a obrigar a falar quando o que queria era fazer outra coisa. Escrevi um relato exato da conversa. Não pretendi fazer declarações imortais. Uma boa fatia das declarações é suficiente.
George Plimpton: Não falámos sobre as personagens. As personagens dos seus trabalhos são retiradas, sem exceção, da vida real?
Hemingway: Claro que não. Algumas nascem da vida real. Na maioria dos casos, invento pessoas a partir do meu conhecimento, compreensão e experiência das pessoas.
George Plimpton: Poderia falar um pouco sobre o processo de transformar uma personagem da vida real numa personagem fictícia?
Hemingway: Se explicasse como isso é, por vezes, feito, seria como oferecer um livro de cabeceira aos advogados.
George Plimpton: Faz a distinção – tal como E. M. Forster – entre personagens “planas” e personagens “redondas”?
Hemingway: Se descrevermos alguém, isso é plano, tal como uma fotografia e, no meu ponto de vista, um falhanço. Se o criarmos a partir daquilo que conhecemos, todas as dimensões deverão estar presentes.
George Plimpton: De que personagens suas se recorda com afeto?
Hemingway: A lista seria longa.
George Plimpton: Então, gosta de reler os seus próprios livros – sem sentir que haveria alterações que gostaria de fazer?
Hemingway: Leio-os, por vezes, para me animar em momentos em que é difícil escrever e lembro-me de que sempre foi difícil e, ocasionalmente, quase impossível.
George Plimpton: Como é que arranja nomes para as suas personagens?
Hemingway: O melhor que posso.
George Plimpton: Os títulos surgem-lhe enquanto ainda está a escrever a história?
Hemingway: Não. Faço uma lista de títulos depois de ter terminado a história ou o livro – às vezes, chego à centena. Depois, começo a eliminá-los. Sucede que os elimine a todos.
George Plimpton: E faz isso mesmo com uma história cujo título provém do texto – “Hills Like White Elephants”, por exemplo?
Hemingway: Sim. O título só surge depois da escrita. Conheci uma rapariga em Prunier, onde tinha ido comer ostras antes do almoço. Sabia que tinha tido um aborto. Aproximei-me e conversámos, não sobre isso, mas enquanto voltava para casa pensei na história, acabei por não almoçar e passei a tarde a escrevê-la.
George Plimpton: Assim, quando não está a escrever, é um observador constante, em busca de algo que possa utilizar.
Hemingway: Certamente. Se um escritor deixar de observar, está acabado. Mas não tem que observar de modo consciente ou de pensar como pode ser útil. Talvez fosse assim no princípio. Mas, mais tarde, tudo o que vê vai para a grande reserva das coisas que conhece ou que viu. Se tem alguma importância, procuro sempre escrever a partir do princípio do icebergue. Sete oitavos estão submersos e não conseguimos vê-los. Podemos eliminar o que quisermos e o icebergue fica mais forte. É a parte que não se vê. Se um escritor omitir algo por desconhecimento, a história tem um buraco.
O Velho e o Mar poderia ter tido mais de mil páginas e todas as personagens da aldeia e a forma como ganhavam a vida, como tinham nascido, como tinham sido educados, como tinham tido filhos, etc. Há outros escritores que o fazem com excelência. Quando escrevemos, estamos limitados pelo que já foi feito de modo satisfatório. Então, procurei fazer algo de diferente. Para começar, procurei eliminar tudo o que não fosse necessário para transmitir a experiência ao leitor, de modo a que, depois da leitura, ela se tornasse uma parte da sua própria experiência e parecesse ter efetivamente acontecido. Trata-se de algo muito difícil e deu-me muito trabalho.
Em todo o caso, tive uma sorte incrível e fui capaz de transmitir inteiramente a experiência e torná-la inédita. A minha sorte foi que tinha um bom homem e um bom rapaz e que, ultimamente, os escritores têm-se esquecido de que ainda há coisas assim. Depois, podemos escrever sobre o oceano, tal como podemos escrever sobre o homem. Isso foi uma sorte. Vi o espadim copular e sei como é. Então, deixei isso de fora. Vi um cardume de mais de cinquenta cachalotes nessa mesma zona do oceano e, certa vez, arpoei um de quase dezoito metros e perdi-o. Então, deixei isso de fora. Deixei de fora todas as histórias que conheço da aldeia piscatória. Mas esse conhecimento é o que forma a parte oculta do icebergue. (continua)

Tradução de Jorge Simões

quinta-feira, 16 de março de 2017

Novidades editoriais de março


Se estás em dúvida quanto ao próximo livro a escolher, trazemos-te hoje algumas sugestões, recolhidas do calendário editorial do grupo Leya para este mês.
No que diz respeito a autores nacionais, temos o clássico Miguel Torga, com Portugal, O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, Nova Teoria do Pecado, de Miguel Real, e A Construção do Vazio, de Patrícia Reis. Somam-se-lhes Praça de Itália, de Antonio Tabucchi, O Sistema Periódico, de Primo Levi, Em Queda Livre, de William Golding, e O Filho, de Jo Nesbo. Todos com a chancela da D. Quixote.
A Biblioteca da Secundária do Castêlo deseja-te boas viagens nas páginas da descoberta.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Encontro com Hemingway - 3


George Plimpton: Costuma ler manuscritos?
Hemingway: A não ser que conheçamos pessoalmente o autor, isso pode arranjar-nos problemas. Há alguns anos, fui processado por plágio por um homem que garantia que eu tinha ido buscar o Por Quem os Sinos Dobram a um roteiro de cinema por publicar que ele tinha escrito. Ele tinha lido o roteiro numa festa qualquer, em Hollywood. Segundo afirmou, eu estava lá, pelo menos havia um tipo chamado “Ernie” a ouvir, e isso bastou-lhe para me processar em um milhão de dólares. Na mesma altura, processou os produtores dos filmes Os Sete Cavaleiros da Vitória e Cisco Kid com a argumentação de que também tinham sido roubados do mesmo roteiro. Fomos a tribunal e, naturalmente, ganhámos o caso. Como se veio a verificar, o homem estava falido.
George Plimpton: Regressemos à lista e pensemos num dos pintores – Jerónimo Bosch, por exemplo. A qualidade simbólica de pesadelo do seu trabalho parece muito distante do que escreve.
Hemingway: Também tenho pesadelos e conheço os pesadelos dos outros. Mas não há necessidade de os colocar no papel. Tudo o que conhecermos e pudermos omitir na escrita, surge como uma qualidade. Quando um escritor omite coisas que desconhece, surgem como buracos na escrita.
George Plimpton: Isso significa que um bom conhecimento dos trabalhos dos autores da sua lista ajudam a encher o “poço” de que falou há pouco? Ou constituíram uma ajuda consciente no desenvolvimento das técnicas de escrita?
Hemingway: Foram uma parte do aprender a ver, a escutar, a pensar, a sentir e a não sentir, e a escrever. O poço é onde está a inspiração. Ninguém sabe de que é feita, muito menos nós próprios. O que se sabe é que se tem ou que se tem que esperar que regresse.
George Plimpton: Aceita a existência de simbolismo nos seus romances?
Hemingway: Suponho que haja símbolos, já que os críticos não param de os encontrar. Se não se importar, desagrada-me falar sobre eles e ser interrogado acerca deles. É suficientemente difícil escrever livros e histórias sem nos pedirem também para os explicar. Além disso, rouba trabalho aos explicadores. Se cinco ou seis ou mais bons explicadores conseguem continuar, por que hei de interferir? Leia o que escrevo pelo prazer da leitura. Tudo o que encontrar para além disso terá a ver com o que tiver trazido para a leitura.
George Plimpton: Mais uma pergunta na mesma linha: um dos editores pensa ter encontrado, em O Sol Nasce Sempre (Fiesta), um paralelismo entre o público na arena de touros e as personagens do próprio romance. Ele lembra que a primeira frase do livro nos diz que Robert Cohn é um pugilista; mais tarde, durante a desencajonada, descreve-se o touro como usando os cornos como um pugilista, aplicando ganchos e golpes. E quando o touro é atraído e pacificado com a presença de um novilho castrado, Robert Cohn submete-se a Jake que está castrado tal como o novilho. Ele vê Mike como o picador, engodando Cohn repetidamente. A tese do editor continua, mas ele pergunta se era sua intenção  ordenar o romance com a estrutura trágica do ritual da tourada.
Hemingway: Parece que o editor foi um pouco disparatado. Quem disse que Jake “estava castrado tal como o novilho”? A verdade é que tinha sofrido um ferimento muito diferente e que os seus testículos se encontravam intactos e sem problemas. Portanto, ele era capaz de todos os sentimentos normais de um homem, mas incapaz de os consumar. A distinção importante é que o seu ferimento era físico e não psicológico e que não estava castrado.
George Plimpton: Estas perguntas sobre a capacidade artística são aborrecidas.
Hemingway: Uma pergunta sensata não é nem um prazer nem um aborrecimento. Ainda assim, acho que é muito mau para um escritor falar sobre a forma como escreve. Ele escreve para ser lido e não deveria haver necessidade de explicações ou dissertações. De certeza que há muito mais do que pode ser abarcado na primeira leitura, mas não cabe ao escritor explicá-lo ou fazer visitas guiadas às regiões mais difíceis do seu trabalho.
George Plimpton: A propósito, lembro-me de ter avisado que é perigoso para um escritor falar sobre um trabalho em decurso porque, digamos, pode dá-lo a conhecer antes do tempo. Porque é que tem que ser assim? Só pergunto por haver tantos escritores – Twain, Wilde, Thurber, Steffens, por exemplo – que parecem ter polido o seu material depois de o testarem em ouvintes.
Hemingway: Não posso crer que Twain alguma vez tenha “testado” Huckleberry Finn em ouvintes. Se o fez, o mais provável é que o tenham levado a cortar coisas boas e a acrescentar partes más. As pessoas que conheciam Wilde diziam que era um melhor conversador do que escritor. Steffen falava melhor do que escrevia. Grande parte da sua escrita e do que dizia podiam ser difíceis de acreditar e ele alterou, ao que sei, muitas histórias à medida que envelhecia. Se Thurber conseguir falar tão bem como escreve, deve ser um dos melhores e menos entediantes conversadores do mundo. O homem que conheço que melhor fala sobre a sua profissão e que possui a língua mais agradável e afiada é Juan Belmonte, o matador.
George Plimpton: É capaz de nos dizer quanto esforço calculado esteve envolvido no desenvolvimento do seu estilo distintitivo?
Hemingway: Essa é uma pergunta longa e cansativa e se passar um par de dias a responder-lhe, será de um modo tão autoconsciente que tornará impossível escrever. Posso dizer que aquilo a que os amadores chamam estilo costuma ser a falta de jeito inevitável quando se começa a tentar fazer algo que ainda não foi feito. Quase nenhum novo clássico se assemelha aos clássicos anteriores. No início, as pessoas só conseguem ver a falta de jeito. Nessa altura, não é uma coisa muito percetível. Quando a falta de jeito se torna muito nítida as pessoas pensam que é um estilo e muitas começam a copiá-lo. É lamentável.
George Plimpton: Certa vez, escreveu-me dizendo que as meras circunstâncias em que vários trabalhos de ficção eram escritos podiam ser instrutivas. Isso é aplicável a Os Assassinos – disse-me que tinha escrito essa short story, Ten Indians e Today is Friday num só dia – e, quem sabe, ao seu primeiro romance, O Sol Nasce Sempre?
Hemingway: Vejamos… Comecei O Sol Nasce Sempre em Valencia, no meu aniversário , a 21 de julho. Eu e a minha mulher, Hadley, tínhamos ido mais cedo a Valencia para tentarmos arranjar bilhetes para a feria, que começou a vinte e quatro de julho. Toda a gente da minha idade tinha escrito um romance e eu ainda estava com dificuldades em escrever um parágrafo. Assim, comecei o livro no dia dos meus anos, escrevi durante o tempo que durou a feria, na cama, de manhã, e continuei em Madrid. Em Madrid não havia feria. Mas tínhamos um quarto com uma mesa e escrevi luxuosamente na mesa e, na esquina mais próxima, numa cervejaria da Pasaje Alvarez onde estava mais fresco. Por fim, acabou por ficar demasiado calor para escrever e fomos para Hendaia. Havia lá um hotelzinho barato junto à esplêndida e enorme praia e trabalhei muito bem lá. De seguida, fui para Paris e terminei o primeiro rascunho no apartamento por cima da serralharia, no número 113 de Notre-Dame-des-Champs, seis semanas depois de ter começado. Mostrei-o a Nathan Asch, o escritor, que nessa altura tinha um sotaque muito acentuado e que disse “Hem, que é ke keresh dicer kom teres escrito um livro? Um romanss, hmm. Hem, eshtás a eskrever um lifro de fiagens”. Não me senti muito desencorajado e reescrevi tudo, tendo mantido a viagem (a parte sobre  a viagem de pesca e Pamplona) em Schruns, no Voralberg, no Hotel Taube.
As histórias que diz que menciona, escrevi-as num dia, em Madrid, a 16 de maio, quando as touradas de San Isidro foram canceladas. Em primeiro lugar, escrevi Os Assassinos, que já tinha tentado escrever sem sucesso. Depois, a seguir ao almoço, enfiei-me na cama para me aquecer e escrevi Today is Friday. Estava tão cheio de inspiração que pensei que talvez estivesse a enlouquecer e ainda tinha mais uma seis histórias para escrever. Então, vesti-me e fui ao Fornos, o velho café dos toureiros, tomei café, voltei e escrevi Ten Indians. Senti-me muito triste, bebi um pouco de brandy e adormeci. Tinha-me esquecido de comer e um dos empregados trouxe-me um pouco de bacalao e um pequeno bife com batatas fritas e uma garrafa de Valdepeñas.
A dona da pensão estava permanentemente preocupada por eu poder não comer o suficiente e tinha enviado o empregado. Recordo-me de estar sentado na cama a comer e a beber o Valdepeñas. O empregado disse que ia trazer outra garrafa e que a Señora queria saber se eu ia passar a noite a escrever. Respondi-lhe que não e que ia descansar um pouco. “Porque é que não tenta escrever só mais uma?”, perguntou-me o empregado. “Só tenho que escrever uma”, expliquei. “Qual quê!”, respondeu. “Podia perfeitamente escrever seis”. “Tento amanhã”, disse eu. “Tente hoje”, insistiu. “Porque é que acha que a velha mandou a comida?”
“Estou cansado”, expliquei. “Disparate!”, disse ele (o termo não foi disparate). “Cansado depois de três historiazinhas. Traduza-me uma delas”.
"Deixe-me em paz", pedi. "Como é que vou conseguir escrever se não me deixar em paz?". Então, sentei-me na cama e pensei que devia ser um escritor excelente se a primeira história fosse tão boa como esperava que fosse. (continua)

Tradução de Jorge Simões

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quadras de S. Martinho dos nossos alunos

Se bem que o S. Martinho já tenha sido (e mesmo se o próximo ainda está para chegar), vamos hoje divulgar as interessantes quadras que, a propósito, alguns dos nossos alunos se empenharam em criar. A todos, os nossos parabéns e votos de que a inspiração não se fique por aqui.


Meu S. Martinho, meu santo bondoso,
Espero que me tornes mais estudioso!
Mas isso também depende de mim
Nem que plante um castanheiro no jardim

Bernardo Silva, nº 7, 9º B

Quando se comem castanhas
Celebra-se o S. Martinho
Neste dia sem manhas
Também se bebe bom vinho

Pedro Lima, nº 21, 9º C

Neste dia temos estado
Todos juntos a celebrar
O bom ato deste soldado
Que fez Jesus abrigar

Miguel Peixe, nº 20, 9º C

Tem camisa e um casaco
Com remendo e sem buraco,
Quando no fogo se mete...
... é remate CR7!

Marta Silva, nº 18, 9º C


É neste dia de S. Martinho
Que volta a vir o quentinho
Comemos castanhas assadas
E damos muitas gargalhadas

Bruna, nº 5, 9º G
Mariana Vieira, nº 17, 9º G

Neste dia tão incrível
Com castanhas nos deliciamos
A alegria é visível
Nos olhos de quem amamos

Alexandra Sá Pinto, nº 1, 9º G

Castanhas quentinhas
Acabadas de assar
Vou comê-las todinhas
Até me fartar.

Ana Catarina Couto, nº 3, 9º G
Bruno Correia, nº 6, 9º G
Samuel Freitas, nº 21, 9º G

E não é que, com tanta poesia e tanto S. Martinho, nos surge um desejo súbito e incontrolável de partilhar castanhas assadas à lareira?


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Discurso de Bob Dylan na entrega do Nobel


A 10 de dezembro foi entregue o Nobel da Literatura a Bob Dylan. Em resultado da impossibilidade da presença do autor, coube a Azita Raji, embaixadora dos Estados Unidos na Suécia, receber o galardão. E ler o discurso de aceitação que Dylan lhe pediu para ler em seu nome e que a seguir transcrevemos.

Boa noite a todos. Estendo as minhas mais calorosas saudações aos membros da Academia Sueca e a todos os distintos convidados hoje aqui presentes.
Lamento não poder comparecer, mas saliento que estou convosco em espírito e que me sinto honrado por receber um prémio tão prestigiado. Nunca imaginei ou antevi alguma vez vir a receber o Prémio Nobel da Literatura. Desde cedo, li e interiorizei os trabalhos de autores que foram dignos desta distinção: Kipling, Shaw, Thomas Mann, Pearl Buck, Albert Camus, Hemingway. Esses gigantes da literatura cujas obras são leccionadas nas escolas, que se encontram presentes em bibliotecas de todo o globo e que são mencionados com reverência sempre me causaram uma forte impressão. O facto de agora me juntar aos nomes de tal lista deixa-me sem palavras.
Ignoro se esses homens e mulheres alguma vez pensaram em serem, eles mesmos, honrados com o Nobel, mas imagino que escrever, em qualquer lugar do mundo, um livro, ou um poema ou um texto dramático poderá albergar, no fundo de si, esse sonho secreto. É possível que se encontre enterrado tão profundamente que nem saibam que lá se encontra.
Se alguém, alguma vez, me tivesse dito que eu tinha hipóteses, por pequenas que fossem, de ganhar o Prémio Nobel, teria que achar que as minhas hipóteses seriam equivalentes às de viajar até à lua. Na verdade, no ano do meu nascimento e ainda durante alguns anos, ninguém no mundo foi considerado suficientemente bom para ganhar este Prémio Nobel. Assim, no mínimo dos mínimos, estou em companhia bastante rara.
Encontrava-me em digressão quando recebi esta notícia surpreendente e tardei mais do que uns meros minutos a processá-la. Comecei a pensar em William Shakespeare, a grande figura literária. Suponho que se considerasse um dramaturgo. Certamente não pensaria estar a escrever literatura. As suas palavras foram escritas para o palco. Com a intenção de serem faladas e não lidas. Quando estava a escrever Hamlet, estou certo de que pensava em várias coisas diferentes: “Quem são os atores certos para estes papéis?”, “Como é que isto deveria ser encenado?”, “Será que quero mesmo que se passe na Dinamarca?”. Sem dúvida que ponderava a sua visão criativa e as suas ambições, mas havia igualmente outras questões mais mundanas a considerar e com que lidar. “Já temos financiamento?”, “Há bons lugares suficientes para os meus patronos?”, “Onde é eu vou arranjar um crânio humano?”. Seria capaz de apostar que a última coisa em que pensava era: “Será que isto é literatura?”
Quando, em jovem, principiei a escrever canções, mesmo quando comecei a ganhar algum renome, as minhas aspirações para essas canções só iam até um certo ponto. Achava que poderiam ser escutadas em cafés ou bares e, mais tarde, talvez em lugares como o Carnegie Hall, o London Palladium. Se sonhasse mesmo alto, talvez imaginasse a gravação de um disco e, depois, ouvir as minhas canções na rádio. Para mim, esse seria o grande prémio. Gravar discos e ouvir as minhas canções na rádio significava que estava chegar a um público vasto e que talvez pudesse continuar a fazer o que decidira fazer.
Bom, há já muito tempo tenho vindo a fazer o que decidi fazer. Gravei dúzias de discos e apresentei-os em milhares de concertos por todo o mundo. Mas são as minhas canções que se encontram no cerne vital de quase tudo o que faço. Parecem ter encontrado um lugar nas vidas de muita gente de muitas culturas diferentes e sinto-me grato por isso.
Há, no entanto, algo de que devo falar. Enquanto artista de palco, toquei diante de 50 mil pessoas e diante de 50 pessoas e posso dizer-vos que é mais difícil tocar para 50 pessoas. 50 mil pessoas formam um corpo singular, não é assim com 50. Cada pessoa possui uma identidade individual e separada, um mundo só seu. Podem ver as coisas com maior clareza. A nossa honestidade, e a forma como se relaciona com a profundidade do nosso talento, é posta à prova. Não posso deixar de pensar até que ponto o Comité Nobel é pequeno.
Mas, tal como Shakespeare, também eu me encontro frequentemente ocupado com a procura da minha criatividade, tendo que lidar com todos os aspetos da vida do dia-a-dia. “Quem são os melhores músicos para estas canções?”, “Será que este é o melhor estúdio para esta gravação?”, “Esta canção está na tonalidade certa?”. Algumas coisas nunca mudam, nem mesmo em 400 anos.
Nunca, mas nunca, tive tempo para me interrogar: “As minhas canções são literatura?”
Assim, agradeço à Academia Sueca por ter usado o seu tempo na consideração dessa interrogação e, enfim, por lhe ter dado uma resposta maravilhosa.

Desejos do melhor para todos,

Bob Dylan

Tradução de Jorge Simões

© The Nobel Foundation 2016

O texto do discurso pode ser publicado livremente, no original ou noutra língua, durante um prazo de duas semanas a contar de 10 de dezembro. A partir daí, deverá ser pedida uma autorização à Fundação Nobel. A menção do copyright deverá surgir em qualquer caso. Se o texto em português, tal como surge acima, for publicado em algum media, dever-se-á incluir o nome do tradutor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Voz das Línguas arranca na Biblioteca


A primeira eliminatória do concurso de Leitura Voz das Línguas, realizada, no passado dia 30 de novembro, na biblioteca da ESCM, garantiu casa cheia e permitiu apurar os primeiros vencedores para a final.
Eis a lista dos apurados, nas modalidades de Português e de Língua Estrangeira, a quem, desde já , agradecemos a participação e o esforço:

Português - Mafalda Silva, do 7º B
                   Diogo Duarte, do 8º B
                   Catarina Marques, do 9º C
                   Andreia Piçarra, do 10º G
                   Francisca Ferreira Dias, do 11º F
                   Sara Silva, do 12º D

Língua Estrangeira - Diogo Martins, do 7º I
                                  Diogo Duarte, do 8º B
                                  Daniel Pereira, do 9º D
                                  Beatriz Paiva, do 10º G
                                  Ana Fernandes, do 12º A

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Encontro com Hemingway - 2


George Plimpton: Acha que um novo escritor poderia beneficiar com trabalho jornalístico? Até que ponto o ajudou o tempo que trabalhou no Kansas City Star?
Hemingway: No Star tínhamos que aprender a escrever uma simples frase declarativa. Isso é uma ajuda para quem quer que seja. O trabalho jornalístico não prejudica o escritor recém-chegado e poderá constituir um apoio se se retirar a tempo. Este é um dos mais velhos lugares-comuns e peço desculpa por isso. Mas quando faz perguntas velhas e gastas, acaba por receber respostas velhas e gastas.
George Plimpton: Certa vez, escreveu na Transatlantic Review que a única razão para se escrever texto jornalístico era ser-se bem pago. Afirmou: “E quando destruímos as nossas coisas de valor ao escrevermos sobre elas, pretendemos lucrar com isso”. Pensa na escrita como uma espécie de autodestruição?
Hemingway: Não me recordo de alguma vez ter escrito isso. Mas parece-me suficientemente tolo e violento que o tenha dito para evitar enervar-me e fazer uma declaração sensata. Com certeza que não penso na escrita como uma espécie de autodestruição, embora o jornalismo, depois de se chegar a um dado ponto, possa constituir uma autodestruição diária para o escritor sério e criativo.
George Plimpton: Acha que o estímulo intelectual da companhia de outros escritores é importante para um autor?
Hemingway: Sem dúvida.
George Plimpton: Na Paris dos anos vinte tinha alguma sensação de pertença a um grupo com outros escritores e artistas?
Hemingway: Não. Não havia essa sensação. Respeitávamo-nos mutuamente. Respeitava muitos pintores, alguns da minha idade, outros mais velhos – Gris, Picasso, Braque, Monet (que ainda estava vivo nesse tempo) – e uns poucos escritores: Joyce, Ezra, Stein…
George Plimpton: Quando escreve, sucede-lhe ser influenciado pelo que estiver a ler nessa altura?
Hemingway: Não desde o tempo em que Joyce estava a escrever Ulysses. A sua influência não foi direta. Mas naqueles dias em que as palavras nos eram barradas e tínhamos que lutar por cada palavra, a influência do seu trabalho foi o que mudou tudo e tornou possível rompermos com as restrições.
George Plimpton: Pode aprender-se com os escritores? Ainda ontem me contou que Joyce não suportava falar sobre a escrita.
Hemingway: Quando estamos com gente da nossa área, é normal falarmos sobre os livros de outros escritores. Quanto melhores forem esses escritores, menos falarão acerca dos seus próprios livros. Joyce era um excelente escritor e só explicava aquilo que fazia aos idiotas. Outros escritores que ele respeitava seriam capazes de o entender simplesmente através da leitura.
George Plimpton: Nos últimos anos, parece ter evitado a companhia de outros escritores. Porquê?
Hemingway: Isso é uma coisa mais complicada. Quanto mais escrevermos, mais isolados acabamos por ficar. A maioria dos nossos amigos, melhores e mais antigos, morrem. Outros mudam-se. Só raramente os encontramos, mas escrevemos e temos basicamente o mesmo tipo de contacto com eles como nos velhos tempos em que nos encontrávamos em cafés. Trocamos correspondência cómica, por vezes divertidamente obscena e irresponsável, e é quase tão bom como conversar. Mas estamos mais isolados porque é assim que devemos trabalhar e porque o tempo para o fazer é menor e se o desperdiçarmos sentimos que cometemos um pecado para o qual não há perdão.
George Plimpton: E a influência de alguns deles – os seus contemporâneos – no seu trabalho? Qual foi a contribuição de Gertrude Stein, se alguma? Ou de Ezra Pound? Ou de Max Perkins?
Hemingway: Lamento, mas não sou bom nestas homenagens fúnebres. Há médicos-legistas, literários e não-literários, que lidam com essas coisas. A menina Stein escreveu bastante e com considerável inexatidão sobre a sua influência no meu trabalho. Teve que o fazer depois de ter aprendido a escrever diálogos com um livro chamado O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Eu gostava muito dela e achei esplêndido que tivesse aprendido a escrever diálogos. Para mim, aprender com os outros, vivos e mortos, não era nada de novo, e não fazia ideia de que a Gertrude se sentiria tão afetada. Ela já escrevia muito bem de outras formas. Ezra era extremamente inteligente quando conhecia uma temática. Este tipo de conversa não o aborrece? Eu acho este tipo de mexerico literário, enquanto lavamos a roupa suja de há trinta e cinco anos, repelente. Teria sido diferente se se tivesse procurado contar toda a verdade. Isso teria algum valor. Aqui, torna-se melhor e mais simples agradecer à Gertrude tudo o que aprendi com ela sobre as relações abstratas das palavras, dizer como gostava dela, reafirmar a minha lealdade a Ezra enquanto grande poeta e amigo leal e salientar que gostava tanto de Max Perkins que nunca consegui aceitar a sua morte. Ele nunca me pediu para alterar nada que tivesse escrito, a não ser retirar algumas palavras que não eram, nesse tempo, publicáveis. Deixavam-se espaços em branco e qualquer um que conhecesse as palavras saberia que estavam lá. Para mim, não era um editor. Era um amigo sábio e um companheiro maravilhoso. Gostava do modo como usava o chapéu e da estranha forma como movimentava os lábios.
George Plimpton: Quem diria serem os seus antepassados literários – aqueles com quem aprendeu mais?
Hemingway: Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turgenev, Tolstoy, Dostoyevsky, Chekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom velho Kipling, Thoreau, Captain Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Jerónimo Bosch, Brueghel, Patinir, Goya, Giotto, Cézanne, Van Gogh, Gauguin, San Juan de la Cruz, Góngora – iria demorar um dia inteiro a lembrar-me de todos. E, então, iria parecer que estava a tentar demonstrar uma erudição que não tinha em vez de me lembrar todos os que influenciaram a minha vida e o meu trabalho. Essa não é uma velha pergunta banal. É uma pergunta muito boa, mas solene e que exige um exame de consciência. Incluí pintores porque aprendo tanto com os pintores como com os escritores. Como? Demoraria mais um dia a explicar. Creio que o que aprendemos com os compositores e com o estudo da harmonia e do contraponto deve ser óbvio.
George Plimpton: Alguma vez chegou a tocar um instrumento?
Hemingway: Tocava violoncelo. A minha mãe deixou-me fora da escola durante um ano para que pudesse aprender música e contraponto. Ela achava-me capaz, mas eu não tinha qualquer talento. Tocávamos música de câmara – vinha alguém de fora para o violino; a minha irmã tocava viola de arco e a minha mãe piano. O violoncelo – tocava-o pior do que toda a gente à face do planeta. Claro que nesse ano também fazia outra coisas.
George Plimpton: Relê os autores da sua lista? Twain, por exemplo?
Hemingway: Temos que pausar durante uns dois ou três anos com o Twain. Lembramo-nos bem demais. Todos os anos leio algum Shakespeare, o Rei Lear sempre. Alegra-me.
George Plimpton: Então, a leitura é um prazer e uma ocupação constante.
Hemingway: Leio sempre – tantos livros quantos houver. Controlo-me para ter sempre que ler. (continua)

Tradução de Jorge Simões

domingo, 20 de novembro de 2016

Eça atribui prémio literário


Está aberto, até 1 de fevereiro de 2017, o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz, no valor de cinco mil euros. Instituído pela Fundação Eça de Queiroz e pela Câmara Municipal de Baião, com coordenação e edição a cargo da Editorial Presença, o prémio distingue um romance inédito de um autor de língua portuguesa.
Se pensas que tens aqui a oportunidade de te lançares no mundo da escrita, consulta o regulamento completo aqui .

domingo, 30 de outubro de 2016

Encontro com Hemingway - 1


Apresentamos, a partir de hoje e de forma sequenciada, uma entrevista com o celebrado autor Ernest Hemingway, ganhador do Nobel da Literatura em 1954 e uma das mais importantes figuras da escrita criativa do século XX. O encontro data de 1958 e tem como entrevistador George Plimpton.

George Plimpton: Sente que as horas que gasta no processo da escrita são agradáveis?
Hemingway: Muito.
George Plimpton: Poder-nos-ia falar sobre esse processo? Quando trabalha? Mantém horários rígidos?
Hemingway: Quando trabalho num livro ou numa história, escrevo todas as manhãs, logo que possível, após o raiar do dia. Não há ninguém que nos perturbe e está fresco ou frio e trabalhamos e aquecemos à medida que escrevemos. Lemos o que escrevemos e, como pausamos sempre num ponto em que sabemos o que vai acontecer a seguir, retomamos a partir daí. Escrevemos até chegarmos a um ponto em que ainda temos inspiração e sabemos como a história vai continuar e paramos e procuramos viver até ao dia seguinte, quando retomamos o trabalho. Podemos, por exemplo, ter começado às seis da manhã e podemos continuar até ao meio-dia ou mesmo antes disso. Quando paramos, sentimo-nos tão vazios, ou simultaneamente nunca vazios mas no processo de ganhar novas energias, como quando fizemos amor com alguém que amamos. Nada nos pode magoar, nada de mau pode acontecer, nada tem significado até ao dia seguinte, quando retomamos o trabalho. Esperar pelo dia seguinte é a parte difícil.
George Plimpton: Consegue esquecer os seus projetos quando está longe da máquina de escrever?
Hemingway: Claro. Mas trata-se de algo que exige disciplina e trata-se de uma disciplina adquirida. Tem que ser.
George Plimpton: Faz alguma reescrita enquanto relê o que escreveu no dia anterior? Ou trata-se de algo que surge mais tarde, quando tudo está terminado?
Hemingway: Todos os dias reescrevo o que escrevi no dia anterior. Quando termino, naturalmente que avanço. Posso voltar a corrigir e a reescrever quando outra pessoa passa o texto à máquina e o vemos escrito dessa maneira. A última oportunidade são as provas. Sinto-me grato por essas diferentes oportunidades.
George Plimpton: Até que ponto reescreve?
Hemingway: Depende. Reescrevi o final de Adeus às Armas, a última página, trinta e nove vezes antes de me dar por satisfeito.
George Plimpton: Foi por causa de algum problema técnico? O que é que o empatou?
Hemingway: Arranjar as palavras certas.
George Plimpton: É a reescrita que aviva a inspiração?
Hemingway: A releitura coloca-nos sempre numa posição em que temos que avançar, sabendo que é o melhor que conseguimos fazer naquele momento. Há sempre inspiração algures.
George Plimpton: Mas há momentos em que a inspiração simplesmente está ausente?
Hemingway: Naturalmente. Mas se tivermos parado num momento em que sabemos o que se segue, podemos avançar. Desde que consigamos começar, tudo está bem. A inspiração acaba por chegar.
George Plimpton: Thornton Wilder fala-nos de técnicas mnemónicas que ajudam o escritor a avançar. Ele diz que certa vez lhe contou que aguçava vinte lápis.
Hemingway: Não acho eu alguma vez tenha tido vinte lápis em simultâneo. Se gastar sete lápis número 2, terei trabalhado bem.
George Plimpton: Em que lugares gostou mais de trabalhar? O hotel Ambos Mundos deve ter sido um deles, tendo em conta o número de livros que lá escreveu. Ou aquilo que o rodeia tem pouca influência no que escreve?
Hemingway: O Ambos Mundos, em Havana, era um ótimo local para trabalhar. O Finca é esplêndido, ou era. Mas trabalhei bem onde quer que tenha sido. Ou seja, consegui trabalhar o melhor que pude em circunstâncias variadas. O telefone e os visitantes é que destroem o trabalho.
George Plimpton: A estabilidade emocional é importante para se trabalhar bem? Certa vez, contou-me que só conseguia escrever bem se estivesse apaixonado. Poderia falar-nos sobre isso?
Hemingway: Que pergunta! Mas parabéns por tentar. Posso escrever em qualquer altura em que as pessoas não me interrompam. Ou se conseguirmos ser antipáticos. Mas sem dúvida que a melhor escrita é quando estamos apaixonados. Se não se importar, preferiria não desenvolver.
George Plimpton: E a estabilidade financeira? Trata-se de algo que pode prejudicar a boa escrita?
Hemingway: Se chegar suficientemente cedo e amarmos tanto a vida como o nosso trabalho, é preciso ter uma personalidade muito forte para se resistir às tentações. Mas se a escrita se tiver tornado o nosso principal vício e o nosso maior prazer, só a morte a poderá parar. Aí, a estabilidade financeira é uma grande ajuda porque não perdemos tempo com preocupações desse tipo. As preocupações destroem a capacidade de escrever. Problemas de saúde são maus porque geram preocupações que nos atacam o subconsciente e destroem as nossas reservas.
George Plimpton: Consegue lembrar-se do momento exato em que decidiu ser escritor?
Hemingway: Não, sempre quis ser escritor.
George Plimpton: Philip Young, na biografia que escreveu sobre si, sugere que o choque traumático do ferimento de granada que sofreu em 1918, poderá ter tido uma forte influência em si enquanto escritor. Lembro-me de que em Madrid falou um pouco acerca dessa tese, tendo-a descartado e acrescentando que achava que o equipamento do artista não era uma característica adquirida, mas sim herdada, no sentido Mendeliano.
Hemingway: É evidente que nesse ano, em Madrid, os meus pensamentos estavam um pouco conturbados. A única coisa de bom poderá ter sido o facto de ter falado muito pouco sobre o livro do senhor Young e sobre a sua teoria literária do trauma. Talvez as duas concussões e uma fratura craniana, nesse ano, me tenham levado a fazer declarações irresponsáveis. Recordo-me de lhe ter dito que acreditava que a imaginação poderia resultar de uma experiência racial herdada. Parece bem enquanto conversa de café pós-concussão, mas é tudo. Então, até ao próximo trauma libertador, fiquemos por aí. Pode ser? Mas obrigado por não mencionar os nomes de alguns parentes que eu possa ter implicado. A parte divertida da conversa é a exploração, mas grande parte dela e tudo que for irresponsável não deve ser escrito. É que a partir do momento em que alguém a escreve temos que a justificar. Podemos ter dito algo para confirmar se acreditávamos ou não no que estávamos a dizer. Quanto ao que disse, os efeitos dos ferimentos variam muito. Ferimentos simples e sem grandes consequências não têm propriamente relevância. Por vezes, dão-nos confiança. Ferimentos que causam problemas sérios aos ossos e aos nervos não são bons para os escritores nem para ninguém.
George Plimpton: Qual diria ser a melhor prática intelectual para quem quiser tornar-se escritor?
Hemingway: Digamos que deveria sair de casa e enforcar-se por ter descoberto que escrever é incrivelmente difícil. De seguida, dever-se-ia mutilar e ver-se forçado por si mesmo a escrever o melhor que conseguisse durante o resto da sua vida. Pelo menos, teria a história do enforcamento como ponto de partida.
George Plimpton: E as pessoas que ingressaram numa carreira académica? Acha que o grande número de escritores com lugares no ensino representa um compromisso para as suas carreiras literárias?
Hemingway: Depende do que pretendemos dizer com compromisso. Estamos a falar de uma mulher que se viu comprometida? Ou do compromisso do homem do estado? Ou do compromisso com o nosso açougueiro ou alfaiate de lhe pagar um pouco mais, só que mais tarde? Um escritor que consegue escrever e ensinar em simultâneo deve fazê-lo. Muitos escritores competentes provaram que é possível. Eu sei que não seria capaz e admiro os que o conseguiram. Ainda assim, penso que talvez a vida académica possa colocar um ponto final nas experiências com o mundo exterior e que isso poderá, eventualmente, limitar o conhecimento do mundo. Mas é verdade que o conhecimento exige maior responsabilidade do escritor e torna a escrita mais difícil. Procurar escrever algo perene é um trabalho a tempo inteiro, mesmo se apenas algumas horas no dia são ocupadas com a escrita em si. Podemos comparar um escritor a um poço. Há tantos tipos de poços como escritores. O importante é que o poço tenha boa água e é melhor retirar uma quantidade de água regularmente do que esvaziar o poço e esperar que se volte a encher. Sei que me estou a afastar da pergunta, mas a pergunta não foi muito interessante. (continua)

Tradução de Jorge Simões

domingo, 16 de outubro de 2016

Mês Internacional das Bibliotecas Escolares


Este ano, o Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, subordinado ao tema Aprende a Descodificar o teu Mundo, iniciou-se, na nossa biblioteca, com um programa de visitas para todas as turmas dos 7º e 8º anos.
Recebemos os alunos para os familiarizarmos com o novo espaço de que podem usufruir, para lhes darmos uma pequena formação de utilizadores e para os iniciarmos na interessante tarefa de pesquisadores de informação.
Quisemos, também, cativá-los para a importância dos livros na vida de todos e oferecemos-lhes a leitura de um pequeno conto de Sophie Carquain, O Encontro com a Dama das Histórias
Esperamos que, na sequência destas atividades, os nossos alunos sintam que estaremos sempre disponíveis para os ajudar e acompanhar.

Nobel da Literatura para Dylan


Aos 75 anos de idade, Bob Dylan foi agraciado com o Nobel da Literatura. Trata-se de uma escolha polémica, defendida, por um lado, pelos que consideram vir na tradição do trabalho de autores como William Shakespeare, e atacada, por outro, por quem salienta tratar-se de um músico e não de um escritor no sentido mais clássico do termo. A questão-base é que the times they are a-changin'
A verdade é que, bem feitas as contas, Dylan poderá ter mais merecimento do que alguns vencedores anteriores como o iconoclasticamente desesperado Camilo José Cela ou o meramente político Alexander Soljenitsin. Até ao momento, o autor ainda não se pronunciou quanto ao prémio. Na Biblioteca do Castêlo, esperamos sinceramente que não siga o exemplo de Sartre que, num gesto datado de snobismo, recusou, em 1964, a honra proporcionada pelo Comité.


Dylan conta, naturalmente, com inúmeras biografias. Para quem quiser conhecer melhor a personagem, em lugar de recomendarmos Chronicles, que se tornou um lugar-comum em termos de recomendação, chamamos a atenção para Behind the Shades - The 20th Anniversary Edition, de Clinton Heylin, provavelmente a obra mais completa até hoje escrita sobre o longo percurso do autor. Editado em 2011 pela Faber & Faber, conta com 931 páginas de uma investigação aturada e não faz favores a ninguém. A ler.