sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quadras de S. Martinho dos nossos alunos

Se bem que o S. Martinho já tenha sido (e mesmo se o próximo ainda está para chegar), vamos hoje divulgar as interessantes quadras que, a propósito, alguns dos nossos alunos se empenharam em criar. A todos, os nossos parabéns e votos de que a inspiração não se fique por aqui.


Meu S. Martinho, meu santo bondoso,
Espero que me tornes mais estudioso!
Mas isso também depende de mim
Nem que plante um castanheiro no jardim

Bernardo Silva, nº 7, 9º B

Quando se comem castanhas
Celebra-se o S. Martinho
Neste dia sem manhas
Também se bebe bom vinho

Pedro Lima, nº 21, 9º C

Neste dia temos estado
Todos juntos a celebrar
O bom ato deste soldado
Que fez Jesus abrigar

Miguel Peixe, nº 20, 9º C

Tem camisa e um casaco
Com remendo e sem buraco,
Quando no fogo se mete...
... é remate CR7!

Marta Silva, nº 18, 9º C


É neste dia de S. Martinho
Que volta a vir o quentinho
Comemos castanhas assadas
E damos muitas gargalhadas

Bruna, nº 5, 9º G
Mariana Vieira, nº 17, 9º G

Neste dia tão incrível
Com castanhas nos deliciamos
A alegria é visível
Nos olhos de quem amamos

Alexandra Sá Pinto, nº 1, 9º G

Castanhas quentinhas
Acabadas de assar
Vou comê-las todinhas
Até me fartar.

Ana Catarina Couto, nº 3, 9º G
Bruno Correia, nº 6, 9º G
Samuel Freitas, nº 21, 9º G

E não é que, com tanta poesia e tanto S. Martinho, nos surge um desejo súbito e incontrolável de partilhar castanhas assadas à lareira?


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Discurso de Bob Dylan na entrega do Nobel


A 10 de dezembro foi entregue o Nobel da Literatura a Bob Dylan. Em resultado da impossibilidade da presença do autor, coube a Azita Raji, embaixadora dos Estados Unidos na Suécia, receber o galardão. E ler o discurso de aceitação que Dylan lhe pediu para ler em seu nome e que a seguir transcrevemos.

Boa noite a todos. Estendo as minhas mais calorosas saudações aos membros da Academia Sueca e a todos os distintos convidados hoje aqui presentes.
Lamento não poder comparecer, mas saliento que estou convosco em espírito e que me sinto honrado por receber um prémio tão prestigiado. Nunca imaginei ou antevi alguma vez vir a receber o Prémio Nobel da Literatura. Desde cedo, li e interiorizei os trabalhos de autores que foram dignos desta distinção: Kipling, Shaw, Thomas Mann, Pearl Buck, Albert Camus, Hemingway. Esses gigantes da literatura cujas obras são leccionadas nas escolas, que se encontram presentes em bibliotecas de todo o globo e que são mencionados com reverência sempre me causaram uma forte impressão. O facto de agora me juntar aos nomes de tal lista deixa-me sem palavras.
Ignoro se esses homens e mulheres alguma vez pensaram em serem, eles mesmos, honrados com o Nobel, mas imagino que escrever, em qualquer lugar do mundo, um livro, ou um poema ou um texto dramático poderá albergar, no fundo de si, esse sonho secreto. É possível que se encontre enterrado tão profundamente que nem saibam que lá se encontra.
Se alguém, alguma vez, me tivesse dito que eu tinha hipóteses, por pequenas que fossem, de ganhar o Prémio Nobel, teria que achar que as minhas hipóteses seriam equivalentes às de viajar até à lua. Na verdade, no ano do meu nascimento e ainda durante alguns anos, ninguém no mundo foi considerado suficientemente bom para ganhar este Prémio Nobel. Assim, no mínimo dos mínimos, estou em companhia bastante rara.
Encontrava-me em digressão quando recebi esta notícia surpreendente e tardei mais do que uns meros minutos a processá-la. Comecei a pensar em William Shakespeare, a grande figura literária. Suponho que se considerasse um dramaturgo. Certamente não pensaria estar a escrever literatura. As suas palavras foram escritas para o palco. Com a intenção de serem faladas e não lidas. Quando estava a escrever Hamlet, estou certo de que pensava em várias coisas diferentes: “Quem são os atores certos para estes papéis?”, “Como é que isto deveria ser encenado?”, “Será que quero mesmo que se passe na Dinamarca?”. Sem dúvida que ponderava a sua visão criativa e as suas ambições, mas havia igualmente outras questões mais mundanas a considerar e com que lidar. “Já temos financiamento?”, “Há bons lugares suficientes para os meus patronos?”, “Onde é eu vou arranjar um crânio humano?”. Seria capaz de apostar que a última coisa em que pensava era: “Será que isto é literatura?”
Quando, em jovem, principiei a escrever canções, mesmo quando comecei a ganhar algum renome, as minhas aspirações para essas canções só iam até um certo ponto. Achava que poderiam ser escutadas em cafés ou bares e, mais tarde, talvez em lugares como o Carnegie Hall, o London Palladium. Se sonhasse mesmo alto, talvez imaginasse a gravação de um disco e, depois, ouvir as minhas canções na rádio. Para mim, esse seria o grande prémio. Gravar discos e ouvir as minhas canções na rádio significava que estava chegar a um público vasto e que talvez pudesse continuar a fazer o que decidira fazer.
Bom, há já muito tempo tenho vindo a fazer o que decidi fazer. Gravei dúzias de discos e apresentei-os em milhares de concertos por todo o mundo. Mas são as minhas canções que se encontram no cerne vital de quase tudo o que faço. Parecem ter encontrado um lugar nas vidas de muita gente de muitas culturas diferentes e sinto-me grato por isso.
Há, no entanto, algo de que devo falar. Enquanto artista de palco, toquei diante de 50 mil pessoas e diante de 50 pessoas e posso dizer-vos que é mais difícil tocar para 50 pessoas. 50 mil pessoas formam um corpo singular, não é assim com 50. Cada pessoa possui uma identidade individual e separada, um mundo só seu. Podem ver as coisas com maior clareza. A nossa honestidade, e a forma como se relaciona com a profundidade do nosso talento, é posta à prova. Não posso deixar de pensar até que ponto o Comité Nobel é pequeno.
Mas, tal como Shakespeare, também eu me encontro frequentemente ocupado com a procura da minha criatividade, tendo que lidar com todos os aspetos da vida do dia-a-dia. “Quem são os melhores músicos para estas canções?”, “Será que este é o melhor estúdio para esta gravação?”, “Esta canção está na tonalidade certa?”. Algumas coisas nunca mudam, nem mesmo em 400 anos.
Nunca, mas nunca, tive tempo para me interrogar: “As minhas canções são literatura?”
Assim, agradeço à Academia Sueca por ter usado o seu tempo na consideração dessa interrogação e, enfim, por lhe ter dado uma resposta maravilhosa.

Desejos do melhor para todos,

Bob Dylan

Tradução de Jorge Simões

© The Nobel Foundation 2016

O texto do discurso pode ser publicado livremente, no original ou noutra língua, durante um prazo de duas semanas a contar de 10 de dezembro. A partir daí, deverá ser pedida uma autorização à Fundação Nobel. A menção do copyright deverá surgir em qualquer caso. Se o texto em português, tal como surge acima, for publicado em algum media, dever-se-á incluir o nome do tradutor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Voz das Línguas arranca na Biblioteca


A primeira eliminatória do concurso de Leitura Voz das Línguas, realizada, no passado dia 30 de novembro, na biblioteca da ESCM, garantiu casa cheia e permitiu apurar os primeiros vencedores para a final.
Eis a lista dos apurados, nas modalidades de Português e de Língua Estrangeira, a quem, desde já , agradecemos a participação e o esforço:

Português - Mafalda Silva, do 7º B
                   Diogo Duarte, do 8º B
                   Catarina Marques, do 9º C
                   Andreia Piçarra, do 10º G
                   Francisca Ferreira Dias, do 11º F
                   Sara Silva, do 12º D

Língua Estrangeira - Diogo Martins, do 7º I
                                  Diogo Duarte, do 8º B
                                  Daniel Pereira, do 9º D
                                  Beatriz Paiva, do 10º G
                                  Ana Fernandes, do 12º A

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Encontro com Hemingway - 2


George Plimpton: Acha que um novo escritor poderia beneficiar com trabalho jornalístico? Até que ponto o ajudou o tempo que trabalhou no Kansas City Star?
Hemingway: No Star tínhamos que aprender a escrever uma simples frase declarativa. Isso é uma ajuda para quem quer que seja. O trabalho jornalístico não prejudica o escritor recém-chegado e poderá constituir um apoio se se retirar a tempo. Este é um dos mais velhos lugares-comuns e peço desculpa por isso. Mas quando faz perguntas velhas e gastas, acaba por receber respostas velhas e gastas.
George Plimpton: Certa vez, escreveu na Transatlantic Review que a única razão para se escrever texto jornalístico era ser-se bem pago. Afirmou: “E quando destruímos as nossas coisas de valor ao escrevermos sobre elas, pretendemos lucrar com isso”. Pensa na escrita como uma espécie de autodestruição?
Hemingway: Não me recordo de alguma vez ter escrito isso. Mas parece-me suficientemente tolo e violento que o tenha dito para evitar enervar-me e fazer uma declaração sensata. Com certeza que não penso na escrita como uma espécie de autodestruição, embora o jornalismo, depois de se chegar a um dado ponto, possa constituir uma autodestruição diária para o escritor sério e criativo.
George Plimpton: Acha que o estímulo intelectual da companhia de outros escritores é importante para um autor?
Hemingway: Sem dúvida.
George Plimpton: Na Paris dos anos vinte tinha alguma sensação de pertença a um grupo com outros escritores e artistas?
Hemingway: Não. Não havia essa sensação. Respeitávamo-nos mutuamente. Respeitava muitos pintores, alguns da minha idade, outros mais velhos – Gris, Picasso, Braque, Monet (que ainda estava vivo nesse tempo) – e uns poucos escritores: Joyce, Ezra, Stein…
George Plimpton: Quando escreve, sucede-lhe ser influenciado pelo que estiver a ler nessa altura?
Hemingway: Não desde o tempo em que Joyce estava a escrever Ulysses. A sua influência não foi direta. Mas naqueles dias em que as palavras nos eram barradas e tínhamos que lutar por cada palavra, a influência do seu trabalho foi o que mudou tudo e tornou possível rompermos com as restrições.
George Plimpton: Pode aprender-se com os escritores? Ainda ontem me contou que Joyce não suportava falar sobre a escrita.
Hemingway: Quando estamos com gente da nossa área, é normal falarmos sobre os livros de outros escritores. Quanto melhores forem esses escritores, menos falarão acerca dos seus próprios livros. Joyce era um excelente escritor e só explicava aquilo que fazia aos idiotas. Outros escritores que ele respeitava seriam capazes de o entender simplesmente através da leitura.
George Plimpton: Nos últimos anos, parece ter evitado a companhia de outros escritores. Porquê?
Hemingway: Isso é uma coisa mais complicada. Quanto mais escrevermos, mais isolados acabamos por ficar. A maioria dos nossos amigos, melhores e mais antigos, morrem. Outros mudam-se. Só raramente os encontramos, mas escrevemos e temos basicamente o mesmo tipo de contacto com eles como nos velhos tempos em que nos encontrávamos em cafés. Trocamos correspondência cómica, por vezes divertidamente obscena e irresponsável, e é quase tão bom como conversar. Mas estamos mais isolados porque é assim que devemos trabalhar e porque o tempo para o fazer é menor e se o desperdiçarmos sentimos que cometemos um pecado para o qual não há perdão.
George Plimpton: E a influência de alguns deles – os seus contemporâneos – no seu trabalho? Qual foi a contribuição de Gertrude Stein, se alguma? Ou de Ezra Pound? Ou de Max Perkins?
Hemingway: Lamento, mas não sou bom nestas homenagens fúnebres. Há médicos-legistas, literários e não-literários, que lidam com essas coisas. A menina Stein escreveu bastante e com considerável inexatidão sobre a sua influência no meu trabalho. Teve que o fazer depois de ter aprendido a escrever diálogos com um livro chamado O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Eu gostava muito dela e achei esplêndido que tivesse aprendido a escrever diálogos. Para mim, aprender com os outros, vivos e mortos, não era nada de novo, e não fazia ideia de que a Gertrude se sentiria tão afetada. Ela já escrevia muito bem de outras formas. Ezra era extremamente inteligente quando conhecia uma temática. Este tipo de conversa não o aborrece? Eu acho este tipo de mexerico literário, enquanto lavamos a roupa suja de há trinta e cinco anos, repelente. Teria sido diferente se se tivesse procurado contar toda a verdade. Isso teria algum valor. Aqui, torna-se melhor e mais simples agradecer à Gertrude tudo o que aprendi com ela sobre as relações abstratas das palavras, dizer como gostava dela, reafirmar a minha lealdade a Ezra enquanto grande poeta e amigo leal e salientar que gostava tanto de Max Perkins que nunca consegui aceitar a sua morte. Ele nunca me pediu para alterar nada que tivesse escrito, a não ser retirar algumas palavras que não eram, nesse tempo, publicáveis. Deixavam-se espaços em branco e qualquer um que conhecesse as palavras saberia que estavam lá. Para mim, não era um editor. Era um amigo sábio e um companheiro maravilhoso. Gostava do modo como usava o chapéu e da estranha forma como movimentava os lábios.
George Plimpton: Quem diria serem os seus antepassados literários – aqueles com quem aprendeu mais?
Hemingway: Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turgenev, Tolstoy, Dostoyevsky, Chekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom velho Kipling, Thoreau, Captain Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Jerónimo Bosch, Brueghel, Patinir, Goya, Giotto, Cézanne, Van Gogh, Gauguin, San Juan de la Cruz, Góngora – iria demorar um dia inteiro a lembrar-me de todos. E, então, iria parecer que estava a tentar demonstrar uma erudição que não tinha em vez de me lembrar todos os que influenciaram a minha vida e o meu trabalho. Essa não é uma velha pergunta banal. É uma pergunta muito boa, mas solene e que exige um exame de consciência. Incluí pintores porque aprendo tanto com os pintores como com os escritores. Como? Demoraria mais um dia a explicar. Creio que o que aprendemos com os compositores e com o estudo da harmonia e do contraponto deve ser óbvio.
George Plimpton: Alguma vez chegou a tocar um instrumento?
Hemingway: Tocava violoncelo. A minha mãe deixou-me fora da escola durante um ano para que pudesse aprender música e contraponto. Ela achava-me capaz, mas eu não tinha qualquer talento. Tocávamos música de câmara – vinha alguém de fora para o violino; a minha irmã tocava viola de arco e a minha mãe piano. O violoncelo – tocava-o pior do que toda a gente à face do planeta. Claro que nesse ano também fazia outra coisas.
George Plimpton: Relê os autores da sua lista? Twain, por exemplo?
Hemingway: Temos que pausar durante uns dois ou três anos com o Twain. Lembramo-nos bem demais. Todos os anos leio algum Shakespeare, o Rei Lear sempre. Alegra-me.
George Plimpton: Então, a leitura é um prazer e uma ocupação constante.
Hemingway: Leio sempre – tantos livros quantos houver. Controlo-me para ter sempre que ler. (continua)

Tradução de Jorge Simões

domingo, 20 de novembro de 2016

Eça atribui prémio literário


Está aberto, até 1 de fevereiro de 2017, o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz, no valor de cinco mil euros. Instituído pela Fundação Eça de Queiroz e pela Câmara Municipal de Baião, com coordenação e edição a cargo da Editorial Presença, o prémio distingue um romance inédito de um autor de língua portuguesa.
Se pensas que tens aqui a oportunidade de te lançares no mundo da escrita, consulta o regulamento completo aqui .

domingo, 30 de outubro de 2016

Encontro com Hemingway - 1


Apresentamos, a partir de hoje e de forma sequenciada, uma entrevista com o celebrado autor Ernest Hemingway, ganhador do Nobel da Literatura em 1954 e uma das mais importantes figuras da escrita criativa do século XX. O encontro data de 1958 e tem como entrevistador George Plimpton.

George Plimpton: Sente que as horas que gasta no processo da escrita são agradáveis?
Hemingway: Muito.
George Plimpton: Poder-nos-ia falar sobre esse processo? Quando trabalha? Mantém horários rígidos?
Hemingway: Quando trabalho num livro ou numa história, escrevo todas as manhãs, logo que possível, após o raiar do dia. Não há ninguém que nos perturbe e está fresco ou frio e trabalhamos e aquecemos à medida que escrevemos. Lemos o que escrevemos e, como pausamos sempre num ponto em que sabemos o que vai acontecer a seguir, retomamos a partir daí. Escrevemos até chegarmos a um ponto em que ainda temos inspiração e sabemos como a história vai continuar e paramos e procuramos viver até ao dia seguinte, quando retomamos o trabalho. Podemos, por exemplo, ter começado às seis da manhã e podemos continuar até ao meio-dia ou mesmo antes disso. Quando paramos, sentimo-nos tão vazios, ou simultaneamente nunca vazios mas no processo de ganhar novas energias, como quando fizemos amor com alguém que amamos. Nada nos pode magoar, nada de mau pode acontecer, nada tem significado até ao dia seguinte, quando retomamos o trabalho. Esperar pelo dia seguinte é a parte difícil.
George Plimpton: Consegue esquecer os seus projetos quando está longe da máquina de escrever?
Hemingway: Claro. Mas trata-se de algo que exige disciplina e trata-se de uma disciplina adquirida. Tem que ser.
George Plimpton: Faz alguma reescrita enquanto relê o que escreveu no dia anterior? Ou trata-se de algo que surge mais tarde, quando tudo está terminado?
Hemingway: Todos os dias reescrevo o que escrevi no dia anterior. Quando termino, naturalmente que avanço. Posso voltar a corrigir e a reescrever quando outra pessoa passa o texto à máquina e o vemos escrito dessa maneira. A última oportunidade são as provas. Sinto-me grato por essas diferentes oportunidades.
George Plimpton: Até que ponto reescreve?
Hemingway: Depende. Reescrevi o final de Adeus às Armas, a última página, trinta e nove vezes antes de me dar por satisfeito.
George Plimpton: Foi por causa de algum problema técnico? O que é que o empatou?
Hemingway: Arranjar as palavras certas.
George Plimpton: É a reescrita que aviva a inspiração?
Hemingway: A releitura coloca-nos sempre numa posição em que temos que avançar, sabendo que é o melhor que conseguimos fazer naquele momento. Há sempre inspiração algures.
George Plimpton: Mas há momentos em que a inspiração simplesmente está ausente?
Hemingway: Naturalmente. Mas se tivermos parado num momento em que sabemos o que se segue, podemos avançar. Desde que consigamos começar, tudo está bem. A inspiração acaba por chegar.
George Plimpton: Thornton Wilder fala-nos de técnicas mnemónicas que ajudam o escritor a avançar. Ele diz que certa vez lhe contou que aguçava vinte lápis.
Hemingway: Não acho eu alguma vez tenha tido vinte lápis em simultâneo. Se gastar sete lápis número 2, terei trabalhado bem.
George Plimpton: Em que lugares gostou mais de trabalhar? O hotel Ambos Mundos deve ter sido um deles, tendo em conta o número de livros que lá escreveu. Ou aquilo que o rodeia tem pouca influência no que escreve?
Hemingway: O Ambos Mundos, em Havana, era um ótimo local para trabalhar. O Finca é esplêndido, ou era. Mas trabalhei bem onde quer que tenha sido. Ou seja, consegui trabalhar o melhor que pude em circunstâncias variadas. O telefone e os visitantes é que destroem o trabalho.
George Plimpton: A estabilidade emocional é importante para se trabalhar bem? Certa vez, contou-me que só conseguia escrever bem se estivesse apaixonado. Poderia falar-nos sobre isso?
Hemingway: Que pergunta! Mas parabéns por tentar. Posso escrever em qualquer altura em que as pessoas não me interrompam. Ou se conseguirmos ser antipáticos. Mas sem dúvida que a melhor escrita é quando estamos apaixonados. Se não se importar, preferiria não desenvolver.
George Plimpton: E a estabilidade financeira? Trata-se de algo que pode prejudicar a boa escrita?
Hemingway: Se chegar suficientemente cedo e amarmos tanto a vida como o nosso trabalho, é preciso ter uma personalidade muito forte para se resistir às tentações. Mas se a escrita se tiver tornado o nosso principal vício e o nosso maior prazer, só a morte a poderá parar. Aí, a estabilidade financeira é uma grande ajuda porque não perdemos tempo com preocupações desse tipo. As preocupações destroem a capacidade de escrever. Problemas de saúde são maus porque geram preocupações que nos atacam o subconsciente e destroem as nossas reservas.
George Plimpton: Consegue lembrar-se do momento exato em que decidiu ser escritor?
Hemingway: Não, sempre quis ser escritor.
George Plimpton: Philip Young, na biografia que escreveu sobre si, sugere que o choque traumático do ferimento de granada que sofreu em 1918, poderá ter tido uma forte influência em si enquanto escritor. Lembro-me de que em Madrid falou um pouco acerca dessa tese, tendo-a descartado e acrescentando que achava que o equipamento do artista não era uma característica adquirida, mas sim herdada, no sentido Mendeliano.
Hemingway: É evidente que nesse ano, em Madrid, os meus pensamentos estavam um pouco conturbados. A única coisa de bom poderá ter sido o facto de ter falado muito pouco sobre o livro do senhor Young e sobre a sua teoria literária do trauma. Talvez as duas concussões e uma fratura craniana, nesse ano, me tenham levado a fazer declarações irresponsáveis. Recordo-me de lhe ter dito que acreditava que a imaginação poderia resultar de uma experiência racial herdada. Parece bem enquanto conversa de café pós-concussão, mas é tudo. Então, até ao próximo trauma libertador, fiquemos por aí. Pode ser? Mas obrigado por não mencionar os nomes de alguns parentes que eu possa ter implicado. A parte divertida da conversa é a exploração, mas grande parte dela e tudo que for irresponsável não deve ser escrito. É que a partir do momento em que alguém a escreve temos que a justificar. Podemos ter dito algo para confirmar se acreditávamos ou não no que estávamos a dizer. Quanto ao que disse, os efeitos dos ferimentos variam muito. Ferimentos simples e sem grandes consequências não têm propriamente relevância. Por vezes, dão-nos confiança. Ferimentos que causam problemas sérios aos ossos e aos nervos não são bons para os escritores nem para ninguém.
George Plimpton: Qual diria ser a melhor prática intelectual para quem quiser tornar-se escritor?
Hemingway: Digamos que deveria sair de casa e enforcar-se por ter descoberto que escrever é incrivelmente difícil. De seguida, dever-se-ia mutilar e ver-se forçado por si mesmo a escrever o melhor que conseguisse durante o resto da sua vida. Pelo menos, teria a história do enforcamento como ponto de partida.
George Plimpton: E as pessoas que ingressaram numa carreira académica? Acha que o grande número de escritores com lugares no ensino representa um compromisso para as suas carreiras literárias?
Hemingway: Depende do que pretendemos dizer com compromisso. Estamos a falar de uma mulher que se viu comprometida? Ou do compromisso do homem do estado? Ou do compromisso com o nosso açougueiro ou alfaiate de lhe pagar um pouco mais, só que mais tarde? Um escritor que consegue escrever e ensinar em simultâneo deve fazê-lo. Muitos escritores competentes provaram que é possível. Eu sei que não seria capaz e admiro os que o conseguiram. Ainda assim, penso que talvez a vida académica possa colocar um ponto final nas experiências com o mundo exterior e que isso poderá, eventualmente, limitar o conhecimento do mundo. Mas é verdade que o conhecimento exige maior responsabilidade do escritor e torna a escrita mais difícil. Procurar escrever algo perene é um trabalho a tempo inteiro, mesmo se apenas algumas horas no dia são ocupadas com a escrita em si. Podemos comparar um escritor a um poço. Há tantos tipos de poços como escritores. O importante é que o poço tenha boa água e é melhor retirar uma quantidade de água regularmente do que esvaziar o poço e esperar que se volte a encher. Sei que me estou a afastar da pergunta, mas a pergunta não foi muito interessante. (continua)

Tradução de Jorge Simões