terça-feira, 12 de abril de 2016

Ensino de literatura portuguesa em risco no Brasil


O governo de Dilma Roussef está a ponderar a eliminação da literatura portuguesa dos currículos adotados nas escolas brasileiras. Autores como Gil Vicente, Camões, Camilo, Garrett,  Eça, Pessoa e Saramago correm o risco de se tornar ilustres desconhecidos dos estudantes a partir de junho. Também os conteúdos gramaticais poderão vir a ser eliminados.
Trata-se de um projecto polémico e que se encontra ainda em discussão, criticado no entanto por esta ser possível apenas através de comentários deixados no site do Ministério da Educação do Brasil (MEC) e não de um verdadeiro debate público.
A polémica em torno destas questões remonta já a 2011, quando, num manual escolar distribuído pelo MEC, a expressão “nós pega o peixe” foi considerada “inadequada e passível de preconceito, mas não errada”. Clóvis Rossi, jornalista da Folha de S. Paulo, comentou, na altura, que “a questão é exclusivamente linguística, alguns esquerdistas de botequim tentam politizá-la com o argumento de que a língua é um instrumento de dominação. Se fosse, deveríamos voltar a falar tupi-guarani”.
Entretanto, parece haver já algum recuo face às primeiras intenções do governo. Recentemente, fontes do MEC afirmaram que "o que pode acontecer é uma mudança na forma como o conteúdo será apresentado". A proposta em debate prevê "o ensino de textos literários tradicionais, da cultura popular, afro-brasileira, africana, indígena e de outros povos".

terça-feira, 5 de abril de 2016

Encontro com Ian McEwan - 2


Adam Begley: Homemade é a história de abertura da tua primeira colecção – é aquela história com o narrador adolescente que engana a sua irmã mais nova e a leva a praticar incesto.
Ian McEwan: Pretendia ser uma paródia de um narrador do tipo Henry Miller, cuja gabarolice sexual se estendia por frases que ocupavam parágrafos inteiros. Foi também uma vénia ao Portnoy de Philip Roth.
AB: Homemade apresenta alguns tópicos de escolha – coito, incesto, autoabuso. Virgindade espoliada. Alguma vez lamentaste ter começado com tamanho estrondo?
IME: Na altura foi divertido. Hoje em dia, tem os seus contras ocasionais, essa coisa do Ian McAbro. Às vezes, acho que nunca conseguirei escapar à minha reputação do início. Mesmo uma crítica reflexiva do Updike sobre Expiação foi marcada, à maneira dos tablóides, pelo The New Yorker como “Lust and Disgust” (Luxúria e Repulsa).
AB: Quando publicaste as primeiras histórias consideraste-te ousado?
IME: Mais impaciente do que ousado. De qualquer modo, a conversa entre os meus amigos era de tal forma escabrosa… Todos tínhamos lido o Burroughs e o Roth e o Genet e o Joyce, tudo se podia dizer e já tinha sido dito. Não me considerei um iconoclasta. Na verdade, achava que escrevia uma prosa bastante educada e conservadora. É verdade que pensava que havia um certo aborrecimento limitativo na ficção inglesa, com as suas nuances da vida de todos os dias e todas as tonalidades cinzentas – minúcias do vestuário, do sotaque, da classe social. Os códigos sociais, a forma como os podemos manipular ou sermos destruídos por eles. É um campo fértil, claro, mas eu não sabia nada sobre isso nem queria ter nada a ver com isso.
AB: Por causa dos teus antecedentes?
IME: Havia algo de curiosamente dissociado nos meus antecedentes. Quando o meu pai foi promovido, a minha família entrou numa terra de ninguém em termos de classe, já não fazíamos parte dos soldados normais, mas também não éramos exactamente elementos da classe dos oficiais. O meu colégio interno era uma experiência do sector público, destinada a fazer com que rapazes oriundos do operariado de Londres ascendessem à classe média culta. Depois, frequentei duas universidades que estavam, pelo menos em termos ingleses, agressivamente desclassificadas. Não tinha nenhum lugar especial ou sentimento de lealdade para com esses estratos intrincados e a minha ficção inicial foi escrita num estado de total indiferença a tudo isso. O meu fascínio por Kafka levou-me a pensar que a ficção mais interessante envolvia personagens que podiam viver livres de quaisquer circunstâncias históricas. Mas é claro que ninguém vive assim. Os críticos ingleses foram céleres em classificar as minhas personagens como pertencentes à classe média-baixa. É útil, como diria Larkin, podermos aprender com isso.
AB: E as crianças? Elas podem existir à margem da história. Há muitas em Primeiro Amor, Últimos Ritos.
IME: É verdade, não temos que descrever os seus trabalhos, nem os casamentos e divórcios.
AB: Tiveste outras razões para escrever sobre crianças?
IME: Um escritor de vinte e dois anos poderá sentir-se inibido por falta de experiência útil. A infância e a adolescência eram algo que eu conhecia. Inúmeros escritores, no início da carreira, passam por alguma forma de recapitulação imaginativa. As perceções da infância são de tal modo brilhantes que as acho difíceis de esquecer. Entram em cena se conseguirmos relaxar a nossa atenção o suficiente – não têm que ser relembradas com esforço; estão simplesmente disponíveis.
AB: Um dos aspetos maiores de Expiação é o ponto de vista de Briony nos capítulos iniciais, quando ainda é uma rapariguinha precoce com vontade de escrever e um gosto perigoso pelo melodrama. Sentiste que imaginar o mundo na perspetiva de uma criança foi como regressar a alguma coisa?
IME: Pareceu-me uma imersão muito mais profunda. Não querer chocar os leitores ou cair no grotesco permite uma muito maior liberdade em termos psicológicos. A criação de crianças na ficção é sempre um problema – o ponto de vista restrito pode tornar-se um garrote. Queria conseguir representar a mente de uma criança ao mesmo tempo que usava todos os recursos de uma linguagem adulta complexa – tal como James faz em What Maisie Knew. Não queria as limitações de um vocabulário infantil. Joyce faz isso nas páginas iniciais de A Portrait of the Artist as a Young Man. Todos tentámos imitá-lo. Deixa-nos suspensos do universo sensorial e linguístico de um rapazinho e a magia refulge – e, depois, desaparece, tal como a infância. Joyce avança e a linguagem evolui. A minha forma de ultrapassar esse problema foi fazer de Briony a minha “autora” e permitir-lhe descrever a sua infância do interior, mas na linguagem do romancista maduro.
AB: Até que ponto eras notado antes da publicação de O Jardim de Cimento (The Cement Garden)?
IME: Desproporcionalmente. Em meados dos anos setenta, quando Amis e eu começámos, não havia muitos novos romancistas. Nós atraímos todas as atenções.
AB: Nessa altura, já tinhas desenvolvido uma rotina de escrita regular?
IME: Começava a escrever todos os dias às nove e meia. Herdei a ética de trabalho do meu pai – independentemente do que tivesse feito na noite anterior, levantava-se sempre às sete. Durante os quarenta e oito anos que passou no exército não faltou um só dia.
Nos anos setenta, costumava trabalhar numa mesinha do meu quarto. Escrevia à mão e usava uma caneta de tinta permanente. Depois, na máquina de escrever, fazia um esboço, fazia escolhas e reescrevia. Certa vez, paguei a um profissional para me passar o texto à máquina, mas senti que faltavam coisas que, se tivesse sido eu a escrever, teria modificado. A meio dos anos oitenta, converti-me alegremente aos computadores. O processamento em Word é mais íntimo, mais próximo do pensamento. Se recapitular, a máquina de escrever parece uma obstrução mecânica grosseira. Gosto da natureza provisória do material não impresso que se guarda na memória do computador – como um pensamento não verbalizado. Gosto de poder continuar a trabalhar frases ou passagens enquanto quiser e do modo como esta máquina fiel se recorda de todas as minhas notazinhas e lembretes. Até ao momento, claro, em que o trabalho vai todo ao ar.
AB: O que é, para ti, um dia frutífero?
IME: Procuro escrever cerca de seiscentas palavras por dia e espero escrever mil, pelo menos, se estiver mais entusiasmado.
AB: Na introdução de A Move Abroad, escreves “Há um certo grau de prazer na escrita criativa que não é assimilado, nem remotamente, pela teoria da literatura.” Podes dar-me um exemplo disso?
IME: O prazer está na surpresa. Pode ser algo tão pequeno como um casamento feliz de um nome com um adjectivo. Ou toda uma nova cena, ou o surgir repentino de uma personagem não planeada que simplesmente cresce a partir de uma expressão. A crítica literária, que procura o sentido, nunca consegue abarcar o facto de que algumas coisas se encontram numa dada página apenas porque deram prazer ao escritor. Um escritor cuja manhã decorre sem problemas, cujas frases se estão a constituir bem, experimenta um prazer calmo e privado. Esse prazer liberta uma riqueza de pensamento que pode espoletar novas surpresas. Os escritores anseiam por esses momentos, por essas sessões. Citando a segunda página de Expiação, é o ponto mais elevado no cumprimento de um projeto. Nenhuma outra coisa – uma boa festa de lançamento, muitos leitores, críticas positivas – se lhe aproxima em termos de satisfação.
AB: Na introdução de The Imitation Game escreves acerca da tua inveja relativamente a quem pertence à indústria do cinema com as suas reuniões urgentes, sempre a correr de um lado para o outro em táxis.
IME: Se, durante semanas a fio, te limitares a conviver com fantasmas e a passar da secretária à cama e de volta à secretária, ficas ansioso por algum tipo de trabalho que envolva outras pessoas. Mas, à medida que fui envelhecendo, passei a sentir-me mais reconciliado com os fantasmas e um pouco menos interessado em trabalhar com outras pessoas. (continua)

Tradução de Jorge Simões

quinta-feira, 31 de março de 2016

Prémio Literário José Luís Peixoto - concorre!


Se tens uma obra poética que gostarias de ver divulgada e completas até 25 anos no último dia de 2016, esta pode ser a tua oportunidade. 
O Município de Ponte de Sôr institui este prémio, cujo vencedor terá direito a mil euros e ainda à publicação da obra, da qual receberá 50 exemplares.
Os trabalhos deverão ter até 20 páginas A4 com espaçamento duplo entre as linhas e tipo de letra Times New Roman, tamanho 12, devendo ser entregues quatro cópias de cada trabalho. Cada concorrente poderá enviar duas obras.
Para que possas agarrar esta oportunidade, lê o Regulamento
Boa sorte!

sábado, 19 de março de 2016

Encontro com Ian McEwan - 1

McEwan em 1979
Apresentamos a partir de hoje, de forma faseada, uma longa e elucidativa entrevista com Ian McEwan, um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Adam Begley realizou-a para The Paris Review em sessões que decorreram de 1996 a 2001.

Adam Begley: No teu terceiro romance, A Criança no Tempo (The Child in Time), encontramos os pais do narrador e suspeito que se assemelhem aos teus pais. Até que ponto é este retrato fiel à vida real?
Ian McEwan: Bastante fiel, ainda que um pouco idealizado. Os meus pais tinham um relacionamento difícil sem jamais o terem reconhecido e era difícil narrá-lo enquanto estavam ambos vivos. Eu nasci em 1948, nos subúrbios de Aldershot, uma cidade Vitoriana bastante feia. Nesse tempo, o meu pai estava no exército. Era oriundo de Glasgow e tinha mentido relativamente à idade, em 1933, para poder entrar no exército e escapar ao desemprego que assolava as margens do Clyde.
Ele aparece pela primeira vez em Expiação (Atonement). Quando, em 1940, trabalhava como condutor de motos, foi ferido nas pernas. Fez equipa com outro soldado que tinha sido ferido nos braços e, entre os dois, conseguiram controlar a mota. Passam por Robbie quando vão na estrada para Dunquerque.
David McEwan era muito atraente, tinha uma postura ereta, com algo de perigoso no aspeto. Bebia bastante, era assustador. Era grande defensor do tipo de vida militar e, simultaneamente, adorava-me. Mas as minhas mais antigas recordações são de idílios com a minha mãe, durante a semana, interrompidos, ao fim de semana, pela chegada ruidosa do meu pai, que enchia o nosso bungalow prefabricado com o fumo dos seus cigarros. Não tinha grande jeito para comunicar com crianças. Gostava do pub e da messe dos sargentos. Tanto eu como a minha mãe o temíamos. Ela tinha crescido numa aldeia perto de Aldershot e tinha deixado a escola aos catorze anos para trabalhar como criada de quarto. Mais tarde, viria a trabalhar numa grande loja. Mas, durante a maior parte da sua vida, foi uma dona de casa que, como todas as donas de casa da sua geração, tinha um enorme orgulho na ordem e brilho do lar.
AB: Em A Criança no Tempo, há uma cena em que a mãe está a chorar. Não sabemos exactamente porquê – ficamos apenas com a vaga noção de que algo está errado.
IME: O hábito de beber do meu pai era, por vezes, um problema. E ficava muito por dizer. Em termos emocionais, não era particularmente vivo ou articulado. Mas tratava-me com muito afeto. Quando eu passava nos exames, ele ficava muito orgulhoso – fui o primeiro, na família, a frequentar o ensino superior.
AB: Como é que eras enquanto criança?
IME: Reservado, pálido, sonhador, muito ligado à minha mãe, tímido, aluno mediano. Há algo de mim no Peter de O Sonhador (The Daydreamer). Era reservado e nunca falava em grupos. Preferia as amizades próximas.
AB: Gostaste de ler desde cedo?
IME: Os meus pais queriam que eu tivesse a educação que nunca tinham tido. Não podiam guiar-me para leituras específicas, mas encorajaram-me a ler, o que fiz, de tudo e compulsivamente. Na minha adolescência, já dispunha de melhores indicações. Aos treze anos, lia Iris Murdoch, John Masters, Nicholas Monsarrat, John Steinbeck. The Go-Between, a obra de L. P. Hartley, impressionou-me muito. Lia, também, livros de divulgação científica. Asimov sobre o cérebro, livros da Penguin sobre o sangue, etc. Pensei seriamente seguir Ciências. Aos dezasseis, tive um professor que foi uma grande influência para mim, Neil Clayton, que me encorajou a alargar os meus horizontes de leitura e que tinha o dom de fazer com que parecesse que autores como Herbert, Swift e Coleridge estavam vivos e presentes. Eu pensava em The Wasteland, the T. S. Eliot, como um poema ritmado da idade do jazz, extremamente acessível. Comecei a pensar na literatura como uma espécie de sacerdócio que me aguardava.
Entrei numa das novas universidades, a universidade do Sussex. Havia lá uma noção vívida e radical do que uma pessoa culta deveria ser. Éramos encorajados a ler diferentes temáticas e a pensá-las no contexto histórico. Kafka e Freud, no meu último ano da universidade, impressionaram-me bastante.
AB: O que estudavas na universidade? Que profissão pensavas vir a ter?
IME: Abandonei a ideia do sacerdócio depois do meu primeiro ano. Pensei simplesmente que me estava a formar. Mas comecei a sentir o entusiasmo da escrita. Tal como é normal, o meu desejo de escrever antecedeu qualquer clara noção do que isso implicava. Depois de me ter formado, soube de um novo curso na Universidade de East Anglia, que me permitiria escrever ficção em simultâneo com o trabalho académico. Telefonei-lhes e, surpreendentemente, fui imediatamente encaminhado para o Malcolm Bradbury, que me disse: “Oh, a parte da ficção foi descontinuada porque não houve candidatos.” Era o primeiro ano do programa. E perguntei: “Bom, e se eu me candidatar?” Ao que ele respondeu: “Venha cá falar connosco e ver-se-á”.
Foi um maravilhoso golpe de sorte. Esse ano – 1970 – mudou-me a vida. Escrevia uma short story a cada três ou quatro semanas e encontrava-me com o Malcolm, durante uma meia hora, num pub em Norwich. Mais tarde, conheci o Angus Wilson. Em termos gerais, ambos me encorajavam mas não interferiam nem davam conselhos específicos. Era ideal. Entretanto, esperavam que escrevesse trabalhos sobre o Burroughs, Mailer, Capote, Updike, Roth, Bellow – estes autores foram uma revelação. O romance americano parecia tão vibrante em comparação com o seu congénere britânico da época! Pleno de ambição e energia e uma certa loucura mal oculta… Procurei responder a esta qualidade de uma certa loucura à minha modesta maneira e escrever contra o que me parecia ser a cinzentidão do estilo inglês e das suas temáticas. Procurei situações extremas, narradores perturbados, obscenidade e choque – e tentei enquadrar esses elementos numa prosa cuidada ou disciplinada. Escrevi a maior parte de Primeiro Amor, Últimos Ritos (First Love, Last Rites) durante esse ano.
AB: Como é que essas short stories chegaram do pub à editora?
IME: A Transatlantic Review publicou a minha história em 1971. Mas o editor de longe mais importante no início da minha carreira, e o primeiro a levar-me a sério, foi Ted Solotaroff na New American Review. Começou a publicar as minhas histórias em 1972 e foi um editor muito prestativo e muito percetivo. A Review era uma publicação trimestral em formato de livro de bolso e cada novo número incluía autênticas pérolas de escritores dos quais nunca ouvira falar. Penso nele como uma figura-chave das Letras americanas. Devo-lhe muito. A excitação que um escritor experimenta no início da sua vida literária nunca pode ser efetivamente repetida. Certa vez, Solotaroff incluiu o meu nome na capa, junto com Günter Grass, Susan Sontag e Philip Roth. Eu tinha vinte e três anos e  senti-me um impostor, mas igualmente muito empolgado. Por volta dessa altura, parti na rota dos hippies com dois amigos americanos. Comprámos uma carrinha Volkswagen em Amsterdão e seguimos para Cabul e para o Paquistão. Enquanto viajávamos, era frequente sonhar que estava de novo sob um céu cinzento que não permitia distrações e que escrevia ficção. Depois de seis meses, estava desesperado por voltar ao trabalho. Pouco depois do meu regresso, o Tom Maschler, da Cape, propôs-me publicar uma colecção das minhas histórias. Durante o inverno de 1974, mudei-me de Londres para Norwich. Foi mais ou menos por volta do tempo em que a New Review de Ian Hamilton avançava. Ele faleceu em dezembro de 2001 e todos os que o conhecíamos ainda sentimos a sua perda. A revista também era um ponto de encontro – o escritório oficioso ficava no pub Pillars of Hercules, na Greek Street. O Ian era o presidente diante de um cenário vívido, caótico e movido a álcool. Conheci inúmeros escritores que se tornaram meus amigos para a vida, cujo trabalho acompanhei de perto desde então – James Fenton, Craig Raine, Christopher Reed. Conheci o Martin Amis nessa época, assim como o Julian Barnes, que escrevia uma coluna para a New Review com o pseudónimo Edward Pygge. Todos estávamos à beira de publicar os nossos primeiros livros. Foi, para mim – espécie de rato do campo das letras -, uma excelente entrada numa cena literária metropolitana que parecia extremamente aberta aos recém-chegados. (continua)

Tradução de Jorge Simões

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa em banda desenhada


Para quem está cansado de tentar perceber Fernando Pessoa sem resultados ou para quem é fã do poeta português mas quer algo mais, encontra-se agora disponível uma adaptação da sua vida à nona arte: As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal
Trata-se de uma edição da Parceria A. M. Pereira, escrita e desenhada por Miguel Moreira e colorida por Catarina Verdier.
O trabalho agora publicado, cuja produção demorou dez anos e que contou com o apoio do eurodeputado Rui Tavares, acompanha a vida de Pessoa do nascimento à morte e inclui diversos trechos do poeta, para além de abordar detalhadamente episódios como o do "dia triunfal", da aventura de Orpheu e ainda do sucídio, em Paris, de Mário de Sá-Carneiro, grande amigo do poeta.
O semi-heterónimo, Bernardo Soares, conta ainda com um pequeno livro de 14 páginas, inteiramente baseado em informações recolhidas a partir do Livro do Desassossego
A obra encontra-se à venda por cerca de 24 € bem gastos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Os nossos alunos participaram em força no concurso do PNL,  Faça Lá um Poema.
Queremos que apreciem alguns dos poemas que eles, com tanta criatividade, escreveram:


A Vida
                            A vida é um carrossel,
                            que dá muitas voltas.
                            Umas vezes caímos e choramos,
                            Umas vezes rimos e rimos
                            Sem parar.
Outras vezes sentimo-nos tontos
 que já nem nos seguramos de pé.
                            É preciso é ter fé .
                            A vida é assim,
                            Sol,chuva ou vento
                              tal como o tempo.
                                                          Constança Sá Cunha 4º B 
                                                                                                            (Escola Básica do Castêlo da Maia)

Tinta
                                             A tinta
                                             é a cor bonitita
                                             que vai da pontita
                                             do meu pincel
                                             comprido
                                             e amigo
                                             que chega
                                             ao papel
                                             que partilho
                                             contigo .             
                                                                                    Filipe Magalhães 4º B
                                                                                                          (Escola Básica do Castêlo da Maia
Xadrez

Estendido ao comprido
Jaz morto no chão,
Lutou até à morte
O pobre peão.

Maligno rei,
Com enorme covardia,
Esconde-se na altura da guerra
Atrás da infantaria.

Guerreiam-se no tabuleiro
Os exércitos da realeza,
Mas nada interessa ao rei
Senão luxo e riqueza.

Muitos lutam nesta batalha,
Como torres, bispos e cavalos
Mas, são todos nas mãos do rei,
Simples e honestos vassalos.


Paulo Alexandre Gomes Monteiro,  8ºB
(Escola Secundária do Castêlo da Maia)

Mora Deus

[ Silêncio no estúdio, luzes, câmara, ação (...) ]
Passeio-me com ideias, em pecado pela beira da rua,
Pelo caminho contam-me os olhos acerca da existência,
Que existo e bem,
Não respondo, nunca percebi muito disso para ser sincero;
Ia sem saber ao que ia,
Planos perigosos segundo dizem,
Ia pela beira fugindo à certeza da queda,
Podia ser melhor tudo isto podia,
Fosse outro e não me ralava com beiras,
Tamanha a confiança,
Mas sou como sou e a perfeição não sei dela,
Perdeu-se-me no caminho.

Ia e sem notar caí por ser humano,
Levantei e segui pela beira,
Pelo caminho contam-me os olhos acerca da existência,
Que existo infelizmente,
Não respondo a provocações,
Nunca me preocupei muito com isso para ser sincero,
Pela beira a passo brando perguntaram-me da queda e assenti, caí sabe-se lá como veja lá, mas se caí para alguma coisa foi, rio-me e conta-me a boca preocupada da sujidade de quando caí, que ficou presa à carne mas que não havia problema que a casa dos banhos era já ali.

Ia sem saber ao que ia,
Planos perigosos segundo dizem,
Ia pela beira, atento ao que suja,
Não queria piorar a minha situação,
Desculpe,
Siga em frente e com fé que dá com aquilo num instante,
Cuidado não se chegue muito para não se sujar,
Agradeço-lhe a informação,
Ia pela beira informado agora e com expectativas largas a passo lestro que há cura graças a
Deus.

Ao fim do cansaço lá cheguei, segundo dizem, com intenções largas de bater à porta, não a tinha, de encontrar, não o vi
mas e então? não estava em casa, não me diga, digo pois, olhos cegos a contarem-me: não fosse a imundice pegar-se e teria a existência comprometida.


Aparentemente, sujo não sirvo para viver,
Sujo não tenho a possibilidade das grandes coisas,
Não,
Já caí, já vi do chão e isso é bom o bastante para me definir,
Já caí, já vi do chão e não o contei a ninguém e disto se fazem as políticas,
De julgamentos mal julgados,
De confissões sem as palavras certas, ou algumas.
Estou sujo,
Já o estava antes da queda mas disfarcei-o com boa roupa,
E sujos do mesmo estamos todos,
Uns mais imundos que outros,
Em comum o facto de que ninguém sai porta fora despido;

Olho por mim olho, não sou o único, olhos hipócritas a contarem-me que não tem mal, desde que os siga cabisbaixo pela beira;
(chora nos fundos uma criança, pequena distingue o bem, pobre criança, suja da brincadeira, fecha os olhos, fecha, não queiras ver demasiado, fecha os olhos, não os queiras mais sujos, fecha, antes que a meia noite desça)

Estou sujo,
E o problema com a sujidade
É não nos preocuparmos para onde vai depois de lavada,
Onde se esconde,
E a vida é todo este conjunto de suposições mal suposicionadas
e depois a negação que cuide do resto,
E não sai não,
Do que me sujei lá fora,
Aceito-o com a maior tranquilidade do mundo,
Abri já os braços aliás.

[Mora Deus numa casa grande, aberta, sem portas, e sobretudo sem nada que ver; olhos cerrados, vendo caladas as suas preces (...) lá no alto o Silêncio na cama, como quer, atento à programação, que a vida está no ar, ação - por favor]
Marco Lamarão 12ºG
                                                                                                                          (Escola Secundária do Castêlo da Maia) 

O Concurso de Cartas de Amor primou pelo romantismo, bom gosto e qualidade de escrita.
Os nossos parabéns aos dignos vencedores!
Escalão alunos:
Mariana Pinto, 4º A
Miguel Pinto, 12º C
Menções honrosas:
Alexandra Garcia, 4º B
Ricardo Rodrigues, 12º B
Escalão professores:
Licínia Martins


Passamos a publicar as cartas vencedoras:

      Minha   querida  amiga Patrícia:


Hoje é dia de S. Valentim
E escrevo esta carta
Porque a nossa amizade
Não tem fim.

Por vezes estamos juntas
A fazer perguntas
E no fim descobrimos
Que sempre nos rimos.

Estarmos juntas faz-me bem
E não te trocaria por nada nem
Por ninguém.

                                    Adoro-te!!!!


Mariana Pinto, 4º A – EB Castêlo da Maia



Monte Kailash, 9 de Fevereiro de 2016
Boa noite, minha Deusa da Lua
Venho interromper o teu sono, já que procuro agradecer condignamente todo o auxílio que me prestas e toda a proteção que me providencias. Na tua imortalidade, encontro um cálido e agradável refúgio, pelo que muito desejo dar-te em troca, sendo eu o teu mais devoto adorador, o teu servo mais dedicado e mais fiel.
Ainda assim, sou nada. Nada mais que uma ínfima fração de toda a tua perfeição e magnificência. Nada mais que um irrisório átomo que, em torno da tua imponência, gira em deleite. Como é tamanha a tua influência nas marés da minha vida, florescendo fugazmente em ofuscante quarto crescente!
No teu santuário, acendi as velas, ansiando desesperadamente pela resposta aos meus delírios, aos meus devaneios e a todas as minhas súplicas. Qual oferenda, arranquei o meu coração e inteiro to entreguei, com a plenitude da minha tão inabalável fé.
Assim, rendi-me aos teus domínios como a presa se rende ao predador, encontrando a nobreza de espírito e a tranquilidade de alma que por tantos equinócios busquei. Desde o dia em que, pela primeira vez, me inspiraste com a tua aparição, descobri, deslumbrado, todo um universo de sentido… um universo do qual me recuso veementemente a sair.
Por agora, só peço que a tua presença se prolongue para lá da eternidade, para lá do infinito, e que, todos os dias, me sussurres ao ouvido “somos só nós dois e nada mais importa”. Bem sabes que te venero com todas as minhas forças! Nem por um segundo hesitarei em ceder ao teu imaculado esplendor! Ad majorem Luna gloriam!
Até ao próximo eclipse,
O teu sacerdote lunar


Miguel Pinto, 12º C – Escola Secundária Castêlo da Maia


Castêlo da Maia, 10 de fevereiro de 2016
Bom dia, meu amor
Acordo a pensar em café. E a lamentar que nunca vou ouvir pessoalmente aquela frase do Clooney: “Nespresso, what else?”. Já sei que a decisão de comprar uma máquina de café Pingo Doce foi tomada a dois, para aproveitar a promoção mas, na época de S. Valentim, concordas que perde um certo encanto. Tu também gostavas muito daquela atriz, a Diane Keaton, enfim tu e o Woody Allen que não a largava para os filmes dele. Na brincadeira costumávamos dizer que ela era tua fã. Isto foi na fase pré Angelina Jolie. A mim o Brad Pitt nunca me impressionou muito mas achei injusto quando o Clooney não conseguiu salvar-se em “The Perfect Storm- Tempestade”. Um filme que mete imensa água, na verdadeira aceção da palavra. Mas do cinema passemos à música. Lembras-te quando tínhamos por hábito cantar rapsódias do José Cid? Fizemo-lo tantas vezes na casa do Castêlo. Depois veio a fase dos apartamentos (até hoje) o que causou sérios constrangimentos. É que nós gostávamos de cantar de madrugada e duvidamos que os vizinhos apreciassem os recitais. Abaixo as casas de cartão que acabaram com A rosa que te dei … ou com O dia em que o rei fez anos. Tivemos também a nossa fase revolucionária em que sabíamos de cor as letras das canções do Sérgio Godinho (sempre Com um brilhozinho nos olhos), do saudoso Zeca Afonso ou mesmo de José Mário Branco: Inquietação, Inquietação, Inquietação, … até à exaustão. Ensinaste-me a gostar dos Pink Floyd e ficarei eternamente agradecida por isso. Quanto aos Queen, Supertramp ou Elton John, já eram preferências comuns. Não foi por acaso que depois de casarmos compramos primeiro a aparelhagem e só muito mais tarde a televisão. Outra paixão que é nossa desde há muito tempo: os livros. Deve ser a mais forte porque, ainda assim, é a mais praticada. Tu gostas de autores portugueses – Saramago, Lobo Antunes, José Rodrigues dos Santos, o consagrado Eça. Deves ter lido quase tudo deste grande autor. Eu comecei muito cedo com o meu pai a recomendar-me Júlio Dinis. Só mais tarde Camilo e Eça. Não gostei muito das Viagens de Garrett que mais parecia um tratado sobre cor dos olhos. Verdes, os de Joaninha. Sim, eu sei que estou a ser tremendamente redutora. A freira do subterrâneo do Camilo fez-me muita impressão na altura e fiquei com pouco apreço pelos conventos. Também leio com entusiasmo Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares e gosto de Isabel Allende ou Maeve Binchy, mas o preferido de sempre é Zafon (e eu sei que também gostas).

Depois do que nos junta, vamos ao que nos separa. O que poderia ter redundado em divórcio se não fôssemos pessoas comedidas e respeitadoras. E estou a falar das nossas preferências clubísticas, no que diz respeito ao futebol. O teu Benfica e o meu Porto. Sempre rivais. E o nosso menino (sim, recuso-me a deixá-lo crescer) saiu a ti. Não percebo. Herdou da mãe a miopia, a cera nos ouvidos, o acne, a caspa (tudo coisas boas) e a alma não ficou azul e branca. Alguma coisa me falhou neste processo e o meu filho adorado faz parte da família benfiquista. É triste mas é assim.

Começamos a namorar no dia 13 de fevereiro de 1988, demonstrando grande sentido de antecipação e casamos no mesmo ano. Juntos há praticamente 28 anos. Se o amor não é isto, então o que é?
Até logo, meu querido.
Da tua
(Sempre Dragão)
Licínia Martins – Escola Secundária do Castêlo da Maia