quinta-feira, 31 de março de 2016

Prémio Literário José Luís Peixoto - concorre!


Se tens uma obra poética que gostarias de ver divulgada e completas até 25 anos no último dia de 2016, esta pode ser a tua oportunidade. 
O Município de Ponte de Sôr institui este prémio, cujo vencedor terá direito a mil euros e ainda à publicação da obra, da qual receberá 50 exemplares.
Os trabalhos deverão ter até 20 páginas A4 com espaçamento duplo entre as linhas e tipo de letra Times New Roman, tamanho 12, devendo ser entregues quatro cópias de cada trabalho. Cada concorrente poderá enviar duas obras.
Para que possas agarrar esta oportunidade, lê o Regulamento
Boa sorte!

sábado, 19 de março de 2016

Encontro com Ian McEwan - 1

McEwan em 1979
Apresentamos a partir de hoje, de forma faseada, uma longa e elucidativa entrevista com Ian McEwan, um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Adam Begley realizou-a para The Paris Review em sessões que decorreram de 1996 a 2001.

Adam Begley: No teu terceiro romance, A Criança no Tempo (The Child in Time), encontramos os pais do narrador e suspeito que se assemelhem aos teus pais. Até que ponto é este retrato fiel à vida real?
Ian McEwan: Bastante fiel, ainda que um pouco idealizado. Os meus pais tinham um relacionamento difícil sem jamais o terem reconhecido e era difícil narrá-lo enquanto estavam ambos vivos. Eu nasci em 1948, nos subúrbios de Aldershot, uma cidade Vitoriana bastante feia. Nesse tempo, o meu pai estava no exército. Era oriundo de Glasgow e tinha mentido relativamente à idade, em 1933, para poder entrar no exército e escapar ao desemprego que assolava as margens do Clyde.
Ele aparece pela primeira vez em Expiação (Atonement). Quando, em 1940, trabalhava como condutor de motos, foi ferido nas pernas. Fez equipa com outro soldado que tinha sido ferido nos braços e, entre os dois, conseguiram controlar a mota. Passam por Robbie quando vão na estrada para Dunquerque.
David McEwan era muito atraente, tinha uma postura ereta, com algo de perigoso no aspeto. Bebia bastante, era assustador. Era grande defensor do tipo de vida militar e, simultaneamente, adorava-me. Mas as minhas mais antigas recordações são de idílios com a minha mãe, durante a semana, interrompidos, ao fim de semana, pela chegada ruidosa do meu pai, que enchia o nosso bungalow prefabricado com o fumo dos seus cigarros. Não tinha grande jeito para comunicar com crianças. Gostava do pub e da messe dos sargentos. Tanto eu como a minha mãe o temíamos. Ela tinha crescido numa aldeia perto de Aldershot e tinha deixado a escola aos catorze anos para trabalhar como criada de quarto. Mais tarde, viria a trabalhar numa grande loja. Mas, durante a maior parte da sua vida, foi uma dona de casa que, como todas as donas de casa da sua geração, tinha um enorme orgulho na ordem e brilho do lar.
AB: Em A Criança no Tempo, há uma cena em que a mãe está a chorar. Não sabemos exactamente porquê – ficamos apenas com a vaga noção de que algo está errado.
IME: O hábito de beber do meu pai era, por vezes, um problema. E ficava muito por dizer. Em termos emocionais, não era particularmente vivo ou articulado. Mas tratava-me com muito afeto. Quando eu passava nos exames, ele ficava muito orgulhoso – fui o primeiro, na família, a frequentar o ensino superior.
AB: Como é que eras enquanto criança?
IME: Reservado, pálido, sonhador, muito ligado à minha mãe, tímido, aluno mediano. Há algo de mim no Peter de O Sonhador (The Daydreamer). Era reservado e nunca falava em grupos. Preferia as amizades próximas.
AB: Gostaste de ler desde cedo?
IME: Os meus pais queriam que eu tivesse a educação que nunca tinham tido. Não podiam guiar-me para leituras específicas, mas encorajaram-me a ler, o que fiz, de tudo e compulsivamente. Na minha adolescência, já dispunha de melhores indicações. Aos treze anos, lia Iris Murdoch, John Masters, Nicholas Monsarrat, John Steinbeck. The Go-Between, a obra de L. P. Hartley, impressionou-me muito. Lia, também, livros de divulgação científica. Asimov sobre o cérebro, livros da Penguin sobre o sangue, etc. Pensei seriamente seguir Ciências. Aos dezasseis, tive um professor que foi uma grande influência para mim, Neil Clayton, que me encorajou a alargar os meus horizontes de leitura e que tinha o dom de fazer com que parecesse que autores como Herbert, Swift e Coleridge estavam vivos e presentes. Eu pensava em The Wasteland, the T. S. Eliot, como um poema ritmado da idade do jazz, extremamente acessível. Comecei a pensar na literatura como uma espécie de sacerdócio que me aguardava.
Entrei numa das novas universidades, a universidade do Sussex. Havia lá uma noção vívida e radical do que uma pessoa culta deveria ser. Éramos encorajados a ler diferentes temáticas e a pensá-las no contexto histórico. Kafka e Freud, no meu último ano da universidade, impressionaram-me bastante.
AB: O que estudavas na universidade? Que profissão pensavas vir a ter?
IME: Abandonei a ideia do sacerdócio depois do meu primeiro ano. Pensei simplesmente que me estava a formar. Mas comecei a sentir o entusiasmo da escrita. Tal como é normal, o meu desejo de escrever antecedeu qualquer clara noção do que isso implicava. Depois de me ter formado, soube de um novo curso na Universidade de East Anglia, que me permitiria escrever ficção em simultâneo com o trabalho académico. Telefonei-lhes e, surpreendentemente, fui imediatamente encaminhado para o Malcolm Bradbury, que me disse: “Oh, a parte da ficção foi descontinuada porque não houve candidatos.” Era o primeiro ano do programa. E perguntei: “Bom, e se eu me candidatar?” Ao que ele respondeu: “Venha cá falar connosco e ver-se-á”.
Foi um maravilhoso golpe de sorte. Esse ano – 1970 – mudou-me a vida. Escrevia uma short story a cada três ou quatro semanas e encontrava-me com o Malcolm, durante uma meia hora, num pub em Norwich. Mais tarde, conheci o Angus Wilson. Em termos gerais, ambos me encorajavam mas não interferiam nem davam conselhos específicos. Era ideal. Entretanto, esperavam que escrevesse trabalhos sobre o Burroughs, Mailer, Capote, Updike, Roth, Bellow – estes autores foram uma revelação. O romance americano parecia tão vibrante em comparação com o seu congénere britânico da época! Pleno de ambição e energia e uma certa loucura mal oculta… Procurei responder a esta qualidade de uma certa loucura à minha modesta maneira e escrever contra o que me parecia ser a cinzentidão do estilo inglês e das suas temáticas. Procurei situações extremas, narradores perturbados, obscenidade e choque – e tentei enquadrar esses elementos numa prosa cuidada ou disciplinada. Escrevi a maior parte de Primeiro Amor, Últimos Ritos (First Love, Last Rites) durante esse ano.
AB: Como é que essas short stories chegaram do pub à editora?
IME: A Transatlantic Review publicou a minha história em 1971. Mas o editor de longe mais importante no início da minha carreira, e o primeiro a levar-me a sério, foi Ted Solotaroff na New American Review. Começou a publicar as minhas histórias em 1972 e foi um editor muito prestativo e muito percetivo. A Review era uma publicação trimestral em formato de livro de bolso e cada novo número incluía autênticas pérolas de escritores dos quais nunca ouvira falar. Penso nele como uma figura-chave das Letras americanas. Devo-lhe muito. A excitação que um escritor experimenta no início da sua vida literária nunca pode ser efetivamente repetida. Certa vez, Solotaroff incluiu o meu nome na capa, junto com Günter Grass, Susan Sontag e Philip Roth. Eu tinha vinte e três anos e  senti-me um impostor, mas igualmente muito empolgado. Por volta dessa altura, parti na rota dos hippies com dois amigos americanos. Comprámos uma carrinha Volkswagen em Amsterdão e seguimos para Cabul e para o Paquistão. Enquanto viajávamos, era frequente sonhar que estava de novo sob um céu cinzento que não permitia distrações e que escrevia ficção. Depois de seis meses, estava desesperado por voltar ao trabalho. Pouco depois do meu regresso, o Tom Maschler, da Cape, propôs-me publicar uma colecção das minhas histórias. Durante o inverno de 1974, mudei-me de Londres para Norwich. Foi mais ou menos por volta do tempo em que a New Review de Ian Hamilton avançava. Ele faleceu em dezembro de 2001 e todos os que o conhecíamos ainda sentimos a sua perda. A revista também era um ponto de encontro – o escritório oficioso ficava no pub Pillars of Hercules, na Greek Street. O Ian era o presidente diante de um cenário vívido, caótico e movido a álcool. Conheci inúmeros escritores que se tornaram meus amigos para a vida, cujo trabalho acompanhei de perto desde então – James Fenton, Craig Raine, Christopher Reed. Conheci o Martin Amis nessa época, assim como o Julian Barnes, que escrevia uma coluna para a New Review com o pseudónimo Edward Pygge. Todos estávamos à beira de publicar os nossos primeiros livros. Foi, para mim – espécie de rato do campo das letras -, uma excelente entrada numa cena literária metropolitana que parecia extremamente aberta aos recém-chegados. (continua)

Tradução de Jorge Simões

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa em banda desenhada


Para quem está cansado de tentar perceber Fernando Pessoa sem resultados ou para quem é fã do poeta português mas quer algo mais, encontra-se agora disponível uma adaptação da sua vida à nona arte: As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal
Trata-se de uma edição da Parceria A. M. Pereira, escrita e desenhada por Miguel Moreira e colorida por Catarina Verdier.
O trabalho agora publicado, cuja produção demorou dez anos e que contou com o apoio do eurodeputado Rui Tavares, acompanha a vida de Pessoa do nascimento à morte e inclui diversos trechos do poeta, para além de abordar detalhadamente episódios como o do "dia triunfal", da aventura de Orpheu e ainda do sucídio, em Paris, de Mário de Sá-Carneiro, grande amigo do poeta.
O semi-heterónimo, Bernardo Soares, conta ainda com um pequeno livro de 14 páginas, inteiramente baseado em informações recolhidas a partir do Livro do Desassossego
A obra encontra-se à venda por cerca de 24 € bem gastos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Os nossos alunos participaram em força no concurso do PNL,  Faça Lá um Poema.
Queremos que apreciem alguns dos poemas que eles, com tanta criatividade, escreveram:


A Vida
                            A vida é um carrossel,
                            que dá muitas voltas.
                            Umas vezes caímos e choramos,
                            Umas vezes rimos e rimos
                            Sem parar.
Outras vezes sentimo-nos tontos
 que já nem nos seguramos de pé.
                            É preciso é ter fé .
                            A vida é assim,
                            Sol,chuva ou vento
                              tal como o tempo.
                                                          Constança Sá Cunha 4º B 
                                                                                                            (Escola Básica do Castêlo da Maia)

Tinta
                                             A tinta
                                             é a cor bonitita
                                             que vai da pontita
                                             do meu pincel
                                             comprido
                                             e amigo
                                             que chega
                                             ao papel
                                             que partilho
                                             contigo .             
                                                                                    Filipe Magalhães 4º B
                                                                                                          (Escola Básica do Castêlo da Maia
Xadrez

Estendido ao comprido
Jaz morto no chão,
Lutou até à morte
O pobre peão.

Maligno rei,
Com enorme covardia,
Esconde-se na altura da guerra
Atrás da infantaria.

Guerreiam-se no tabuleiro
Os exércitos da realeza,
Mas nada interessa ao rei
Senão luxo e riqueza.

Muitos lutam nesta batalha,
Como torres, bispos e cavalos
Mas, são todos nas mãos do rei,
Simples e honestos vassalos.


Paulo Alexandre Gomes Monteiro,  8ºB
(Escola Secundária do Castêlo da Maia)

Mora Deus

[ Silêncio no estúdio, luzes, câmara, ação (...) ]
Passeio-me com ideias, em pecado pela beira da rua,
Pelo caminho contam-me os olhos acerca da existência,
Que existo e bem,
Não respondo, nunca percebi muito disso para ser sincero;
Ia sem saber ao que ia,
Planos perigosos segundo dizem,
Ia pela beira fugindo à certeza da queda,
Podia ser melhor tudo isto podia,
Fosse outro e não me ralava com beiras,
Tamanha a confiança,
Mas sou como sou e a perfeição não sei dela,
Perdeu-se-me no caminho.

Ia e sem notar caí por ser humano,
Levantei e segui pela beira,
Pelo caminho contam-me os olhos acerca da existência,
Que existo infelizmente,
Não respondo a provocações,
Nunca me preocupei muito com isso para ser sincero,
Pela beira a passo brando perguntaram-me da queda e assenti, caí sabe-se lá como veja lá, mas se caí para alguma coisa foi, rio-me e conta-me a boca preocupada da sujidade de quando caí, que ficou presa à carne mas que não havia problema que a casa dos banhos era já ali.

Ia sem saber ao que ia,
Planos perigosos segundo dizem,
Ia pela beira, atento ao que suja,
Não queria piorar a minha situação,
Desculpe,
Siga em frente e com fé que dá com aquilo num instante,
Cuidado não se chegue muito para não se sujar,
Agradeço-lhe a informação,
Ia pela beira informado agora e com expectativas largas a passo lestro que há cura graças a
Deus.

Ao fim do cansaço lá cheguei, segundo dizem, com intenções largas de bater à porta, não a tinha, de encontrar, não o vi
mas e então? não estava em casa, não me diga, digo pois, olhos cegos a contarem-me: não fosse a imundice pegar-se e teria a existência comprometida.


Aparentemente, sujo não sirvo para viver,
Sujo não tenho a possibilidade das grandes coisas,
Não,
Já caí, já vi do chão e isso é bom o bastante para me definir,
Já caí, já vi do chão e não o contei a ninguém e disto se fazem as políticas,
De julgamentos mal julgados,
De confissões sem as palavras certas, ou algumas.
Estou sujo,
Já o estava antes da queda mas disfarcei-o com boa roupa,
E sujos do mesmo estamos todos,
Uns mais imundos que outros,
Em comum o facto de que ninguém sai porta fora despido;

Olho por mim olho, não sou o único, olhos hipócritas a contarem-me que não tem mal, desde que os siga cabisbaixo pela beira;
(chora nos fundos uma criança, pequena distingue o bem, pobre criança, suja da brincadeira, fecha os olhos, fecha, não queiras ver demasiado, fecha os olhos, não os queiras mais sujos, fecha, antes que a meia noite desça)

Estou sujo,
E o problema com a sujidade
É não nos preocuparmos para onde vai depois de lavada,
Onde se esconde,
E a vida é todo este conjunto de suposições mal suposicionadas
e depois a negação que cuide do resto,
E não sai não,
Do que me sujei lá fora,
Aceito-o com a maior tranquilidade do mundo,
Abri já os braços aliás.

[Mora Deus numa casa grande, aberta, sem portas, e sobretudo sem nada que ver; olhos cerrados, vendo caladas as suas preces (...) lá no alto o Silêncio na cama, como quer, atento à programação, que a vida está no ar, ação - por favor]
Marco Lamarão 12ºG
                                                                                                                          (Escola Secundária do Castêlo da Maia) 

O Concurso de Cartas de Amor primou pelo romantismo, bom gosto e qualidade de escrita.
Os nossos parabéns aos dignos vencedores!
Escalão alunos:
Mariana Pinto, 4º A
Miguel Pinto, 12º C
Menções honrosas:
Alexandra Garcia, 4º B
Ricardo Rodrigues, 12º B
Escalão professores:
Licínia Martins


Passamos a publicar as cartas vencedoras:

      Minha   querida  amiga Patrícia:


Hoje é dia de S. Valentim
E escrevo esta carta
Porque a nossa amizade
Não tem fim.

Por vezes estamos juntas
A fazer perguntas
E no fim descobrimos
Que sempre nos rimos.

Estarmos juntas faz-me bem
E não te trocaria por nada nem
Por ninguém.

                                    Adoro-te!!!!


Mariana Pinto, 4º A – EB Castêlo da Maia



Monte Kailash, 9 de Fevereiro de 2016
Boa noite, minha Deusa da Lua
Venho interromper o teu sono, já que procuro agradecer condignamente todo o auxílio que me prestas e toda a proteção que me providencias. Na tua imortalidade, encontro um cálido e agradável refúgio, pelo que muito desejo dar-te em troca, sendo eu o teu mais devoto adorador, o teu servo mais dedicado e mais fiel.
Ainda assim, sou nada. Nada mais que uma ínfima fração de toda a tua perfeição e magnificência. Nada mais que um irrisório átomo que, em torno da tua imponência, gira em deleite. Como é tamanha a tua influência nas marés da minha vida, florescendo fugazmente em ofuscante quarto crescente!
No teu santuário, acendi as velas, ansiando desesperadamente pela resposta aos meus delírios, aos meus devaneios e a todas as minhas súplicas. Qual oferenda, arranquei o meu coração e inteiro to entreguei, com a plenitude da minha tão inabalável fé.
Assim, rendi-me aos teus domínios como a presa se rende ao predador, encontrando a nobreza de espírito e a tranquilidade de alma que por tantos equinócios busquei. Desde o dia em que, pela primeira vez, me inspiraste com a tua aparição, descobri, deslumbrado, todo um universo de sentido… um universo do qual me recuso veementemente a sair.
Por agora, só peço que a tua presença se prolongue para lá da eternidade, para lá do infinito, e que, todos os dias, me sussurres ao ouvido “somos só nós dois e nada mais importa”. Bem sabes que te venero com todas as minhas forças! Nem por um segundo hesitarei em ceder ao teu imaculado esplendor! Ad majorem Luna gloriam!
Até ao próximo eclipse,
O teu sacerdote lunar


Miguel Pinto, 12º C – Escola Secundária Castêlo da Maia


Castêlo da Maia, 10 de fevereiro de 2016
Bom dia, meu amor
Acordo a pensar em café. E a lamentar que nunca vou ouvir pessoalmente aquela frase do Clooney: “Nespresso, what else?”. Já sei que a decisão de comprar uma máquina de café Pingo Doce foi tomada a dois, para aproveitar a promoção mas, na época de S. Valentim, concordas que perde um certo encanto. Tu também gostavas muito daquela atriz, a Diane Keaton, enfim tu e o Woody Allen que não a largava para os filmes dele. Na brincadeira costumávamos dizer que ela era tua fã. Isto foi na fase pré Angelina Jolie. A mim o Brad Pitt nunca me impressionou muito mas achei injusto quando o Clooney não conseguiu salvar-se em “The Perfect Storm- Tempestade”. Um filme que mete imensa água, na verdadeira aceção da palavra. Mas do cinema passemos à música. Lembras-te quando tínhamos por hábito cantar rapsódias do José Cid? Fizemo-lo tantas vezes na casa do Castêlo. Depois veio a fase dos apartamentos (até hoje) o que causou sérios constrangimentos. É que nós gostávamos de cantar de madrugada e duvidamos que os vizinhos apreciassem os recitais. Abaixo as casas de cartão que acabaram com A rosa que te dei … ou com O dia em que o rei fez anos. Tivemos também a nossa fase revolucionária em que sabíamos de cor as letras das canções do Sérgio Godinho (sempre Com um brilhozinho nos olhos), do saudoso Zeca Afonso ou mesmo de José Mário Branco: Inquietação, Inquietação, Inquietação, … até à exaustão. Ensinaste-me a gostar dos Pink Floyd e ficarei eternamente agradecida por isso. Quanto aos Queen, Supertramp ou Elton John, já eram preferências comuns. Não foi por acaso que depois de casarmos compramos primeiro a aparelhagem e só muito mais tarde a televisão. Outra paixão que é nossa desde há muito tempo: os livros. Deve ser a mais forte porque, ainda assim, é a mais praticada. Tu gostas de autores portugueses – Saramago, Lobo Antunes, José Rodrigues dos Santos, o consagrado Eça. Deves ter lido quase tudo deste grande autor. Eu comecei muito cedo com o meu pai a recomendar-me Júlio Dinis. Só mais tarde Camilo e Eça. Não gostei muito das Viagens de Garrett que mais parecia um tratado sobre cor dos olhos. Verdes, os de Joaninha. Sim, eu sei que estou a ser tremendamente redutora. A freira do subterrâneo do Camilo fez-me muita impressão na altura e fiquei com pouco apreço pelos conventos. Também leio com entusiasmo Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares e gosto de Isabel Allende ou Maeve Binchy, mas o preferido de sempre é Zafon (e eu sei que também gostas).

Depois do que nos junta, vamos ao que nos separa. O que poderia ter redundado em divórcio se não fôssemos pessoas comedidas e respeitadoras. E estou a falar das nossas preferências clubísticas, no que diz respeito ao futebol. O teu Benfica e o meu Porto. Sempre rivais. E o nosso menino (sim, recuso-me a deixá-lo crescer) saiu a ti. Não percebo. Herdou da mãe a miopia, a cera nos ouvidos, o acne, a caspa (tudo coisas boas) e a alma não ficou azul e branca. Alguma coisa me falhou neste processo e o meu filho adorado faz parte da família benfiquista. É triste mas é assim.

Começamos a namorar no dia 13 de fevereiro de 1988, demonstrando grande sentido de antecipação e casamos no mesmo ano. Juntos há praticamente 28 anos. Se o amor não é isto, então o que é?
Até logo, meu querido.
Da tua
(Sempre Dragão)
Licínia Martins – Escola Secundária do Castêlo da Maia

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Encontro com Amin Maalouf

Publicamos hoje uma entrevista com o escritor franco-libanês Amin Maalouf, membro da Academia Francesa e autor de oito romances (o último dos quais não foi publicado pelo nosso triste panorama editorial), cinco ensaios, incluindo o celebrado As Cruzadas Vistas pelos Árabes, e quatro libretos de ópera. A entrevista foi realizada por Julien Burri para L´Hebdo, em setembro de 2012.


Não é todos os dias que temos a sorte de nos encontrarmos com um "imortal". Mas mesmo após a sua entrada na Academia Francesa, Amin Maalouf sabe pôr-nos à vontade. Tímido, reservado, encantador e dono de um grande sentido de humor, é simultaneamente leve e solene. A sua eleição (para a Academia) recompensa uma obra que não para de insistir que a concórdia entre os povos é possível e de recordar um tempo em que a coabitação não era uma palavra vã. Assim, escreveu Amin Maalouf em Origens, "há pouco mais de cem anos, os cristão do Líbano consideravam-se naturalmente sírios, os sírios procuravam um rei para os lados de Meca, os judeus da Terra Santa diziam-se palestinianos... e o meu avô Boutros considerava-se um cidadão otomano." Munido de paciência, o escritor deita abaixo "o muro do ódio" erigido "entre europeus e africanos, entre o ocidente e o Islão, entre judeus e árabes". Pretende dar a volta à história, a qual nos empurra para o confronto. Em 2012, Os Desorientados assinala o seu grande regresso à ficção. Adam, o herói deste romance, regressa ao seu país de origem depois de um quarto de século de exílio (um país que não é nomeado, mas que adivinhamos tratar-se do Líbano). Um dos seus amigos está às portas da morte e deseja revê-lo. Adam regressa à cidade onde estudou e revê todos os que conheceu e amou. Recusa a falência dos ideais da sua juventude e exclama: "Sou eu que estou certo e a História que se engana."

Julien Burri: Podemos ler uma narrativa da sua própria história nos bastidores de Os Desorientados?
Amin Maalouf: Há já muito que queria evocar, de algum modo, a minha juventude. Simultaneamente, não sou um autor que goste de contar a sua vida. Já falei da minha família (em O Rochedo de Tanios, Escalas do Levante ou Origens). No entanto, nunca tinha falado dos meus anos na universidade. Não tinha ainda encontrado o tom certo. Nada que me preocupasse, já que sei que os livros têm que amadurecer. Por fim, nasceu uma história, que não é a minha, mas que é inteiramente feita de histórias minhas.
Julien Burri: Trata-se, no fundo, de um livro pessimista. O nosso mundo seguiu um rumo negativo. É isso que explicava no seu mais recente ensaio, O Desarranjo do Mundo, publicado em 2009.
Amin Maalouf: O mundo com o qual as minhas personagens tinham sonhado não corresponde de todo àquilo em que o mundo se transformou. Daí o título deste livro, Os Desorientados, com a dupla ideia de distanciação e de Oriente perdido. As minhas personagens já não sabem onde ir nem onde se encontram. Sentem-se deslocadas no seu país mas sentem-lhe a falta quando estão ausentes. Sentem que a História seguiu uma direção errada. Eles sonhavam com a harmonia, com menos tensões identitárias. Nada aconteceu como previam. Alguns comprometeram-se enquanto outros preferiram fugir. Outros ainda, radicalizaram-se.
Julien Burri: Mas alguma vez o mundo foi tão harmonioso como afirma? Não houve sempre conflitos identitários?
Amin Maalouf: O mundo nunca foi harmonioso. Mas o que é grave atualmente é esta inadequação entre a evolução tecnológica, científica e económica que conhecemos por um lado e a evolução das mentalidades do outro, que não avançam e têm mesmo, por vezes, tendência a regredir. A coexistência era mais fácil há vinte anos do que atualmente em muitas sociedades por todo o mundo. Muitas cidades onde as pessoas se encontravam foram destruídas e muitos modelos de coexistência falharam. Na Europa, a Dinamarca ou os Países Baixos eram admiráveis pela sua abertura aos outros. Atualmente, os outros são olhados com desconfiança. A culpa é partilhada. Há razões objetivas que o explicam, tensões no mundo árabe que alimentam as teses de rejeição. Mas há também uma tendência para rejeitar o emigrado, tornando-o culpado por tudo. Não é necessário ser angélico, nem pessimista, mas sim reconhecer que a diversidade é, numa sociedade, fonte de riquezas, assim como de tensões.
Julien Burri: Porque escolheu, desta vez, escrever um romance e não um ensaio?
Amin Maalouf: No fundo do meu ser, estou convencido de que o romance contém mais verdade do que a verdade histórica. Por exemplo, foram escritos inúmeros ensaios sobre as campanhas napoleónicas na Rússia. Um só foi e continuará a ser lido e trata-se de um romance: Guerra e Paz. No momento presente, as primaveras árabes merecem o seu Guerra e Paz. Um romance capaz de conter em si, mais do que seria possível num ensaio, a verdade da nossa época.
Julien Burri: Apesar de tudo, Os Desorientados não é um livro sombrio. É igualmente divertido e sensual. Tocante. Assim, Adam, a sua personagem, amou uma mulher sem nunca ter sido capaz de lho dizer.
Amin Maalouf: Faz-me pensar nos meus primeiros amores, mas o que conto no livro não é exatamente o que aconteceu!  Vou-lhe contar tudo, mas tem que ficar entre nós... (sorriso) Quando eu tinha 17 anos, tinha uma vizinha muito bonita que era seis meses mais nova do que eu. Os pais dela não a deixavam sair exceto se eu a acompanhasse. Diziam: "Se o Amin estiver presente, vai tomar conta de ti e nada te vai acontecer" . Quando a convidavam para algum lado, eu ia com ela para os sossegar. Eu gostava dela, mas a situação inibia-me, não podia portar-me como um malandro! Tudo isso durou uns três ou quatro anos. Vinte anos mais tarde, reencontrámo-nos. Os nossos caminhos tinham divergido e ambos éramos casados. Quis-lhe confessar tudo,  mas não conseguia. Por fim, foi ela que me disse: "De cada vez que me acompanhavas, eu pensava: vai-me beijar! Mas porque é que não o fizeste?"  Fui um idiota, é verdade! Na vida, não pude fazer as coisas de outro modo e, então, capturei-me no romance. Em Os Desorientados este episódio tem um desfecho completamente diferente.
Julien Burri: Como viveu a sua entrada na Academia Francesa?
Amin Maalouf: Como uma sorte e como um desafio. Foi simultaneamente um momento muito tocante e também um pouco difícil. Fui eleito a 23 de junho de 2011 e só entrei a 14 de junho de 2012. Os preparativos demoraram. Foi necessário preparar o vestuário, a espada e o discurso em que homenageei Claude Lévi-Strauss, que ocupava a minha cadeira antes de mim. Falar em público nunca será uma coisa banal e que eu possa abordar com serenidade.
Julien Burri: A sua família foi forçada a abandonar diversas casas, em Istambul e, mais tarde, no Cairo. Você mesmo teve que abandonar o Líbano. Desta feita, parece ter enfim encontrado um porto seguro.
Amin Maalouf: Sei, quando entro neste sítio, que aqui permanecerei até ao fim dos meus dias. E que continuarei a conviver com estas pessoas, todas as semanas e até ao fim da minha vida. É uma forma de pertença muito rara e que nunca experienciei antes. Não podemos pedir a demissão da Academia! Quando morrermos, alguém fará o nosso elogio fúnebre e alguém tomará o nosso lugar.
Julien Burri: É um local muito simbólico para a língua francesa, essa “língua da sombra” que preferiu ao árabe quando começou a escrever.
Amin Maalouf: Não estava muito familiarizado com o francês, não o falava na casa dos meus pais. A minha língua social era o árabe. A língua das minhas leituras e dos meus diários era o francês. Tudo mudou quando me exilei. E isso permite-me uma perspetiva particular da língua, visto que nada é inato. Mas vou confidenciar-lhe uma coisa: não me sinto muito à vontade quando falo francês, tenho receio de me enganar! Ao passo que, na escrita, tenho tempo para fazer correções.
Julien Burri: O que significa o seu nome em árabe?
Amin Maalouf: Amin significa fiel. « O guardião do segredo ». Era também o nome do meu avô maternal, que vinha do Egito e pertencia a uma família anglófona e protestante. Casou com uma mulher de Istambul, Virginie, que tinha crescido numa família de tradição francófona e católica. A minha mãe era a filha mais velha do casal. Como tinha uma ligação muito forte ao pai, quis dar o mesmo nome ao seu primeiro filho.

Tradução de Jorge Simões

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


Avizinha-se uma efeméride, O Dia de S. Valentim, ou o Dia dos Namorados, e, com ela, a nossa biblioteca lança a 2ª edição do Concurso de Cartas de Amor, a decorrer entre os dias 1 e 12 de fevereiro. 

Antecipamos a data de 14 de fevereiro, publicando um poema de Álvaro de Campos.



Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas. 

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas. 

Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas. 

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente 
Ridículas.) 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa