sexta-feira, 5 de junho de 2015

Concurso de Leitura, A Voz das Línguas

No dia 2 de junho decorreram, na biblioteca da Secundária do Castêlo, a terceira eliminatória e a final do Concurso de Leitura, A Voz das Línguas. Fomos surpreendidos pela grande qualidade das leituras e dos textos escolhidos.
Os vencedores ficaram escalonados da seguinte forma:
- na terceira eliminatória, a Português, Ana Monteiro, nº 1 do 8º I, Ivan Verbisnky, nº 10 do 9º C e João Festas, nº 10 do 10º A; a Língua Estrangeira, Diogo Cruz, nº 7 do 8º H, Margarida Vigo, nº 15 do 9º F, Isabel Silva, nº 9 do 10º A e Diana Amorim, nº 12 do 12º D, todos eles a Inglês;
- na final, a Português, Ana Monteiro, nº 1 do 8º I, Inês Moreira, nº 20 do 9º B, Francisco Moreira, nº 9 do 10º D e Patrícia Sendas, nº 26 do 12º D; a Língua Estrangeira, Vanessa Ferreira, nº 22 do 8º E (a Francês), Margarida Vigo, nº 15 do 9º F, Lucas Silva, nº 13 do 10º A e, em pé de igualdade, Diana Amorim e Patrícia Sendas, números 12 e 26 do 12º D.
Ficamos gratos por este momento com que os nossos alunos nos presentearam, no final do ano, e que nos anima a continuar a nossa ação em prol da leitura em voz alta.
Obrigado a todos os intervenientes nesta atividade e especiais parabéns aos dignos vencedores por parte da equipa da biblioteca.
O público durante as leituras
O júri do concurso em deliberação

Os vencedores de Português

Os vencedores de Língua Estrangeira







domingo, 31 de maio de 2015

Escritor do mês: Ernest Hemingway



Nascido em Oak Park, no estado norte americano do Illinois, em 1899, Hemingway foi jornalista e escritor e uma das principais influências na modernização da escrita do século XX.
Vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1954, esteve presente na Grande Guerra, onde foi gravemente ferido, foi jornalista em Espanha durante a Guerra Civil, tendo-se tornado então um aficionado da tourada, viveu em Paris, Londres e em Cuba, onde defendeu a Revolução e foi amigo de Fidel Castro e Che Guevara, casou-se quatro vezes e legou-nos uma coleção de sete romances, seis coletâneas de contos e dois trabalhos não ficcionais, a que se somaram, a título póstumo, três novos romances, quatro coletâneas de contos e três trabalhos não ficcionais. As suas obras foram, de igual modo, frequentemente adaptadas para o cinem e para a televisão.
Vítima de vários acidentes que quase o deixaram às portas da morte e o marcaram física e mentalmente, manteve, nos últimos anos da sua vida, residência em Key West, na Florida, e em Cuba. Em 1959, adquiriu uma casa em Ketchum, no Idaho, onde acabou por cometer suicídio e falecer a 2 de julho de 1961. Para o suicídio terão contribuído, para além das sequelas físicas de uma vida de aventura, o facto de ter adquirido um forte hábito de consumo de álcool e a possibilidade de, tal como o seu pai, que também se suicidara, padecer de hemocromatose, uma doença que causa a incapacidade do organismo de metabolizar o ferro e que conduz à deterioração física e mental.
Eis um pequeno exemplo da sua literatura, com o conto Um Gato à Chuva:


Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Não conheciam nenhuma das pessoas com quem se tinham cruzado pelas escadas, no movimento de “entra e sai” do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, num apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e para o monumento da guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom, havia lá sempre um pintor com o seu cavalete. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento da guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava a chover. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar rebentava numa extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e rebentar de novo numa longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento da guerra. Do outro lado, um empregado de mesa olhava a praça vazia, da porta de um snack-bar. A mulher americana, de pé, próxima à janela, observava o movimento. Fora do hotel, bem debaixo da janela deles, uma gata estava encolhida debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata enroscava-se para não se molhar. – Eu vou descer e agarrar naquela gatinha – disse a mulher americana. – Deixa estar que eu faço disso – retorquiu o marido da cama. – Não, não há problema, eu vou. Pobre gatinha, a tentar proteger-se da chuva debaixo da mesa. O marido continuou a sua leitura, apoiado em dois travesseiros aos pés da cama. – Não te molhes – disse ele. A mulher desceu as escadas e o dono do hotel levantou-se para a cumprimentar quando ela passou pelo seu escritório. Ele era velho e muito alto. – Il piove – disse a mulher. Ela gostava do dono do hotel. – Si, si, Signora, brutto tempo. O tempo está muito ruim. Ele ficou de pé atrás de sua mesa, no fundo da sala escura. A mulher gostava dele. Apreciava o modo extremamente sério com que acolhia qualquer reclamação. Admirava a sua dignidade. Gostava da forma como ele a tratava. Gostava de como ele se sentia honrado em cuidar do hotel. Gostava do seu rosto velho e marcado pelo tempo e das suas mãos grandes. Enquanto pensava nele, ela abriu a porta e olhou para o exterior. A chuva estava mais forte. Um homem com uma capa atravessava a praça em direção ao café. A gata deveria estar por perto, à direita. Talvez pudesse ir por debaixo dos telhados. Ainda estava na porta quando um guarda-chuva se abriu atrás dela. Era a empregada do seu quarto. – A senhora não deve molhar-se – sorriu, falando italiano. Obviamente, tinha sido mandada pelo dono do hotel. A americana andou pelo caminho de cascalho, com a empregada a segurar o guarda-chuva para que ela não se molhasse, até que chegou debaixo da janela do seu quarto. A mesa estava lá, com um verde brilhante após ter sido lavada pela chuva, mas o gato tinha desaparecido. De repente, ela sentiu-se desapontada. A empregada olhou para a hóspede. – Ha perduto qualque cosa, Signora? – O gato – disse a mulher americana. – Um gato? – Si, il gatto. – Um gato? – a empregada riu. – Um gato na chuva? – Sim – respondeu. – Debaixo da mesa. Eu queria tanto que ela fosse minha. Queria ter uma gatinha. Quando ela falou em inglês, o rosto da empregada contraiu-se. – Venha, signora – disse. – Devemos voltar para dentro. A senhora vai acabar por se molhar. – Está bem – disse a jovem americana. Voltaram pelo caminho de cascalho e entraram pela porta. A empregada ainda ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando a jovem americana passou pelo escritório, o padrone fez um gesto de cortesia, da sua mesa. A jovem sentiu como se houvesse algo muito pequeno e apertado dentro de si. O padrone fez com que ela se sentisse insignificante e ao mesmo tempo muito importante. Subiu as escadas. Abriu a porta do quarto. George estava a ler, na cama. – Conseguiste agarrar o gato? – perguntou, baixando o livro. – Não, desapareceu. – Para onde será que ele foi? – perguntou ele, tirando os olhos do livro. Ela sentou-se na cama. – Eu queria tanto aquela gatinha. Nem sei porque é que a queria tanto. Queria aquela pobre gatinha. Deve ser horrível ser uma gatinha indefesa nessa chuva. George tinha retomado a leitura. Ela caminhou e sentou-se na frente do espelho da cómoda, olhando para si mesma, com um espelho na mão. Estudou o seu perfil, primeiro de um lado, depois do outro. Então estudou a parte de trás de sua cabeça e a sua nuca. – Não achas boa ideia eu deixar o meu cabelo crescer? – perguntou, olhando de novo para o seu perfil. George olhou e viu sua nuca, raspada como a de um garoto. – Gosto dele como está. – Estou tão farta deste cabelo – disse ela. Estou tão farta de parecer um rapaz. George mudou de posição na cama. Ainda não tinha desviado os olhos dela desde que começara a falar. – Estás muito bonita – disse ele. Ela colocou o espelho na cómoda, foi para a janela e olhou para o lado de fora. Estava a escurecer – Quero puxar o meu cabelo para trás, bem preso e liso, e fazer um puxo bem grande para que eu o sinta. E quero uma gatinha para se sentar no meu colo e fazer ronrom quando eu lhe fizer festas. – Pois – disse George da cama. – E quero comer numa mesa com os meus próprios talheres e quero velas. E quero que seja primavera, quero pentear o meu cabelo na frente de um espelho e quero uma gatinha nova e roupas novas. – Ora, está calada e lê alguma coisa – disse George. Estava novamente a ler. A sua esposa olhava pela janela. Agora o céu estava bastante escuro e a chuva continuava a cair nas palmeiras. – De qualquer modo, eu quero um gato – disse ela. – Eu quero um gato. Quero um gato agora. Se não posso ter cabelos compridos nem uma distração, posso ter um gato. George não estava a ouvir. Estava a ler o seu livro. A sua mulher olhou pela janela e viu que a luz da praça estava acesa. Alguém bateu na porta. – Avanti – disse George e levantou os olhos do livro. A empregada estava de pé à porta. Segurava num grande gato malhado, apertado fortemente contra o seu corpo. – Com licença – disse – O padrone mandou trazer o gato para a Signora.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Os Dias da Saúde


Nos dias 21, 22 e 23 de abril, a biblioteca da ESCM acolheu as atividades dinamizadas pelas turmas do Curso Técnico de Auxiliar de Saúde. Assistimos a palestras sobre os malefícios do tabaco, a alimentação saudável e a sexualidade e violência no namoro.
Agradecemos a preciosa colaboração do Centro de Saúde do Castêlo da Maia e esperemos que os frutos destas atividades se traduzam, nos nossos alunos, em mudanças para comportamentos crescentemente saudáveis.

Cristina Carvalho no AECM

Cristina Carvalho na Biblioteca da ESCM
A escritora Cristina Carvalho, filha do célebre poeta Rómulo de Carvalho, mais conhecido como António Gedeão, esteve presente na biblioteca da Escola Secundária do Castêlo da Maia, em resultado de um projeto de leitura desenvolvido pela professora Rosa Amaral com as turmas dos Cursos Técnicos de Restauração.
Os momentos sucederam-se em momentos de grande intensidade e adesão por parte dos presentes: um almoço temático ao som da musica de Chopin, numa alusão à obra Nocturno, o romance de Chopin e, na biblioteca, uma dramatização de um excerto do livro Lusco-Fusco, em sombras chinesas, assim como uma agradável conversa informal com a autora.
Deixamos-vos com um sincero agradecimento a todos os intervenientes e ainda com um convite para que tomem contacto com a interessante obra de Cristina Carvalho.


Capa da obra Lusco-Fusco

terça-feira, 28 de abril de 2015

Escritor do mês: Somerset Maugham


William Somerset Maugham foi um dos maiores nomes da escrita britânica - dramaturgo, romancista e escritor de short stories - , nascido em janeiro de 1874 na embaixada do Reino Unido, em Paris, e falecido em dezembro de 1965. 
Com apenas dez anos de idade ficou órfão de pai e mãe, tendo sido criado por um tio emocionalmente distante. Ainda que pressionado para se tornar advogado, como era tradição na família, Maugham optou pela Medicina e trabalhou com a Cruz Vermelha durante a Grande Guerra. Trabalhou igualmente para os Serviços Secretos e viajou intensivamente, sendo que a sua experiência de viagens se viria a refletir na sua escrita. O seu primeiro romance, Liza of Lambeth (1897), vendeu-se com tal rapidez que Maugham acabou por desistir da medicina poara se dedicar exclusivamente à escrita.
O autor legou-nos uma imensidão de obras, de entre as quais destacamos Servidão Humana (1915), O Véu Pintado (1925) e O Fio da Navalha (1944). Trinta e seis das suas obras foram adaptadas ao cinema. Em 1947, criou o Prémio Somerset Maugham, destinado a premiar os melhores escritores britãnicos até aos 35 anos de idade. Doou em testamento as royalties dos seus trabalhos ao Royal Literary Fund. Dele disse George Orwell: "Foi o escritor moderno que mais me influenciou e que admiro enormemente pela sua capacidade de narrar uma história diretamente e sem floreados". 
De Maugham, divulgamos hoje o conto/short story O Sacristão:

O Sacristão

Naquela tarde, houvera batizado na igreja de St. Peter, em Neville Square, e Albert Edward Foreman ainda estava com a sua toga de sacristão. Guardava a toga nova, com as suas dobras tão perfeitas e cheias como se não fossem de alpaca, senão de bronze eterno, para os funerais e os casamentos (St. Peter, em Neville Square, era uma igreja muito procurada para tais ceri­mónias pelas famílias da classe alta), e agora estava com a toga classificada em segundo lugar. Albert Edward Foreman usava a toga com calma satisfação, pois era o digno símbolo da sua função, e sem ela (quando a despia para ir para casa) tinha a perturbadora sensação de estar vestido um pouco insuficiente­mente. Elas mereciam-lhe muitos cuidados; passava-as a ferro pessoalmente. Durante os dezasseis anos em que fora sacristão desta igreja, tivera uma sucessão de togas, mas não pudera deitá-las fora quando envelheciam; e a série completa, primoro­samente embrulhada em papel pardo, jazia no fundo da gaveta do guarda-roupa, no seu quarto.
O sacristão movia-se discretamente; repôs a tampa de madeira esmaltada sobre a pia batismal, que era de mármore, recolocou no seu lugar uma cadeira que fora trazida para uma senhora idosa e enferma, e ficou à espera de que o pároco terminasse os seus arranjos pessoais na sacristia, a fim de pôr tudo em ordem e ir para casa. Agora, viu-o entrar no coro, fazer uma genuflexão diante do altar-mor, e tomar a direção da nave; tirara a sobrepeliz e a estola, mas ainda estava de batina.
- Por que andará ele a trocar as pernas ? - disse, para si, o sacristão. - Então não sabe que tenho de ir tomar chá ?
O pároco fora provido recentemente, um homem enérgico, de cara vermelha, com mais de quarenta anos; e Albert Edward continuava a lamentar a saída do antecessor, um padre da velha escola, que pregava descansadamente com voz argentina e jantava quase sempre com os paroquianos mais aristocráticos. Gostava que as coisas da igreja estivessem nos seus lugares, mas nunca se arreliava por causa de bagatelas; não era como este, que em tudo queria pôr o dedo. Mas Albert Edward era tolerante. St. Peter ficava num ótimo bairro e os paroquianos eram gente fina. O novo pároco viera do East End e não se podia esperar que se adaptasse imediatamente às maneiras discretas de uma congregação de fiéis aristocráticos.
- É um transtorno - dizia Albert Edward. - Mas, com o tempo, ele aprenderá.
Quando o pároco avançara pela nave o suficiente para poder dirigir-se ao sacristão sem levantar a voz mais do que era conveniente num lugar de adoração, parou.
- Foreman, venha um momento até a sacristia. Tenho uma coisa a dizer-lhe.
- Com certeza, reverendo.
O pároco esperou que ele chegasse e seguiram juntos em direção ao altar.
- Foi um batizado muito bonito. Engraçado como o bebé parou de chorar quando o senhor padre segurou nele.
- Tenho notado que quase sempre é assim - disse o pároco, com um pequeno sorriso.
- Mas, no fim de contas, tenho grande prática de pegar em crianças.
Para ele, era uma fonte de orgulho, sempre reprimido, o fato de quase sempre poder sossegar as crianças, que choravam, pela maneira de as segurar; e não deixava de tomar conhecimento da divertida admiração com que as mães e amas o viam aninhar a criança na dobra da manga da sobrepeliz. O zelador compreendia que lhe agradava ser cumprimentado por esta habilidade.
O pároco precedeu Albert Edward na sacristia. O zelador ficou um pouco surpreendido ao encontrar-se com os dois guar­diães da junta paroquial. Não os
vira chegar. Ambos lhe acenaram amistosamente com a cabeça.
- Boa-tarde, senhor lorde. Boa-tarde, senhor general - disse a um e a outro.
Eram homens idosos, ambos, e ocupavam os seus postos há quase tanto tempo quanto Albert Edward era sacristão. Agora, estavam sentados à bela mesa de jantar que o antigo pároco trouxera da Itália, muitos anos atrás; e o pároco sentou-se na cadeira vaga, entre os dois guardiães. Albert Edward estava de frente para eles, com a mesa de permeio; e, sentindo um vago mal-estar, especulava sobre o possível tema da conversa. Lembrava-se ainda da ocasião em que o organista se metera numa complicação e dos aborrecimentos por que tinham passado para abafar a coisa. Numa igreja como a de St. Peter, em Neville Square, não se tolerava um escândalo. No rosto vermelho do pároco, havia uma expressão de resoluta benignidade; mas os outros tinham as fisionomias levemente perturbadas.
"O padre andou a aborrecer os dois", disse consigo o sacristão. "Pediu-lhes para fazerem alguma coisa e eles não gostaram. É isso mesmo, sou capaz de garantir."
Mas os pensamentos não apareciam nas feições bem marcadas e distintas de Albert Edward. Mantinha-se em atitude respeitosa, mas não servil. Fora doméstico, antes de obter este cargo, mas só trabalhara em casas de tratamento, e a sua maneira de se conduzir era irrepreensível. Começando como menino de recados na residência de um comerciante forte, subira gradualmente do posto de quarto criado a primeiro; fora durante um ano mordomo da viúva de um par; e, até que se abrisse a vaga na igreja de St. Peter, mordomo com dois auxiliares na casa de um embaixador reformado. Era alto, enxuto, grave, e digno. Se não parecia um duque, assemelhava-se pelo menos a um ator da velha escola, especializado em papéis de duque. Tinha tato, firmeza e segurança. O seu caráter era inatacável. O pároco começou abruptamente.
- Foreman, temos uma coisa um pouco desagradável para lhe comunicar. Você já trabalha aqui há longos anos e penso que o senhor lorde e o senhor general concordam comigo que cumpriu os deveres do seu cargo a contento.
Os dois guardiães fizeram um gesto de aquiescência.
- Mas uma circunstância extraordinária chegou ao meu conhecimento, um dia destes, e achei ser meu dever participá-la aos guardiães. Descobri, com assombro, que você não sabe ler nem escrever.
O rosto do sacristão não exibiu nenhum sinal de embaraço.
- O último pároco sabia disso, reverendo - respondeu. - Disse-me que não fazia mal. Dizia sempre que na sua opinião havia demasiada educação no mundo.
- Essa é a coisa mais espantosa que já ouvi até hoje - exclamou o general. - Quer dizer que foi zelador desta igreja durante dezasseis anos e nunca aprendeu a ler e escrever ?
- Eu comecei a trabalhar com doze anos, senhor general. O cozinheiro da primeira casa onde me empreguei tentou ensi­nar-me, uma vez, mas parece que eu não tinha muito jeito, e depois, com uma coisa e outra, nunca me sobrava tempo. E o certo é que nunca senti falta disso. Acho que uma muitos rapazes desperdiçam muito tempo a ler, quando bem podiam estar a fazer alguma coisa de útil.
- Mas não sente vontade de ler as notícias ? - disse o primeiro guardião. - Nunca sente vontade de escrever uma carta ?
- Não, senhor lorde, passo muito bem sem isso. E, nos últimos anos, os jornais vêm com todas essas figuras, e eu entendo regularmente o que está a acontecer. A minha senhora é muito instruída e, quando quero escrever uma carta, ela escreve-a por mim.
Os dois guardiães fitaram os olhos aflitos no pároco e seguidamente na mesa.
- Bem, Foreman, eu discuti o assunto com estes dois senhores e eles concordam inteiramente comigo que a situação é insustentável. Numa igreja como a de St. Peter, em Neville Square, não pedemos ter um sacristão que não saiba ler e escrever.
O rosto fino e pálido de Albert Ecíward enrubesceu, e ele mexeu com os pés, contrafeito, mas não respondeu.
- Compreenda-me, Foreman, eu não tenho nenhuma queixa de si. Faz o seu trabalho de modo inteiramente satisfatório; tenho no mais alto conceito tanto o seu caráter como a sua capacidade; mas não temos o direito de nos arriscarmos a algum acidente que poderia acontecer em consequência da sua lamentável ignorância. Trata-se de uma questão de prudência, assim como de princípio.
- Mas você não podia aprender, Foreman ? - perguntou o general.
- Não, senhor; acho que agora, não. O senhor vê, eu já não sou novo como era e, se não podia meter as letras na cabeça quando era miúdo, acho que agora não há nenhuma possibilidade.
- Não queremos ser duros com você, Foreman - disse o pároco. - Mas os guardiães e eu estamos inteiramente decididos. Dar-lhe-emos três meses de prazo e, se no fim desse período você não souber ler e escrever, acho que terá de deixar o lugar.
Albert Edward nunca simpatizara com o novo padre. Desde o começo, dissera que tinham cometido um erro ao entregar-lhe a igreja de St. Peter. Não era o tipo de homem para urna congregação de fiéis de classe, como aquela. Agora, empinou um pouco o busto. Conhecia o seu valor e não ia permitir que o afrontassem.
- Desculpe, reverendo, mas acho que assim não me serve. Sou um animal muito velho para aprender truques novos. Vivo já há tantos anos sem aprender a ler e a escrever, e, sem me querer autoelogiar (o elogio não é recomendação na boca do elogiado), posso dizer que fiz o meu dever nesse estado da vida em que a Providência misericordiosa achou por bem colocar-me, e, mesmo que pudesse aprender agora, acho que não me decidiria.
- Nesse caso, Foreman, creio que tem de deixar o lugar.
- Sim, reverendo, eu compreendo. Terei todo o gosto em apresentar a minha demissão logo que o senhor padre encontre alguém que me substitua.
Mas quando Albert Edward, com a sua delicadeza habitual, fechara a porta da igreja depois de o pároco e os dois guardiães terem passado, não pode conservar a atitude de calma dignidade com que suportara o golpe; e os seus lábios tremeram. Voltou lentamente para a sacristia e pendurou no respetivo cabide a toga de sacristão. Suspirou, ao pensar nos grandes funerais e nos casamentos elegantes a que assistira. Pôs tudo em ordem, enfiou o casaco, e, de chapéu na mão, percorreu a nave em direção à frente. Saiu e fechou a porta da igreja à chave. Cruzou devagar a praça, mas, absorto nos seus pensamentos tristes, não tomou a rua que ia ter à sua casa, onde o esperava uma boa taça de chá forte; seguiu um rumo errado. Caminhava lentamente. Sentia uma opressão no peito. Não sabia o que fazer consigo mesmo. Não lhe agradava a ideia de voltar para o serviço doméstico; depois de ter sido dono do seu nariz durante tantos anos (pois o pároco e os guardiães podiam dizer o que quisessem, mas era ele quem administrava a igreja de St. Peter), dificilmente se aviltaria aceitando um emprego naquele ramo. Poupara uma boa soma, mas não era suficiente para viver sem fazer alguma coisa, e a vida parecia estar mais cara de ano para ano. Jamais julgara ter algum dia de se preocupar com tais problemas. Os sacristãos da igreja de St. Peter, como os papas, eram vitalícios. Com frequência, pensava na grata referência que o pároco haveria de fazer, durante o sermão das vésperas do primeiro domingo depois de sua morte, aos longos e fiéis serviços e ao caráter exemplar do nosso finado sacristão, Albert Edward Foreman. Soltou um suspiro fundo. Albert Edward era abstémio de álcool e tabaco, porém com certa largueza; isto é, gostava de um copo de cerveja ao jantar e, quando estava cansado, fumava com prazer um cigarro. Ocorreu-lhe agora que um cigarro havia de o confortar e, como não os trazia consigo, olhou em torno, à procura de uma casa onde pudesse comprar um maço de Gold Flakes. Não encontrou imediatamente nenhuma tabacaria, e continuou a cxaminhar. Era uma rua longa, com toda a espécie de comércio, mas não havia uma só casa onde se pudessem comprar cigarros.
- É esquisito - disse Albert Edward.
Para se certificar, tornou a percorrer a rua, em sentido inverso. Não; não havia dúvidas quanto a isso. Parou e olhou, pensativo, para um lado e outro.
- Eu não posso ser a única pessoa que passa por esta rua e sente vontade de fumar - disse. - Acho que alguém  poderia obter sucesso, com uma pequena tabacaria por aqui. Cigarros e doces, naturalmente.
De repente, alçou a cabeça.
- Está aí uma ideia - disse. - É esquisito como nos lembramos das coisas quando menos se espera. Deu meia volta, foi para casa e tomou o chá.
- Estás tão silencioso esta tarde, Albert - observou a mulher.
- Estou a pensar - disse ele.
Estudou a questão, de todos os ângulos; no dia seguinte, percorreu a rua e, por sorte, descobriu um local que estava para alugar e serviria exatamente para o seu intento. Vinte e quatro horas depois, alugara-o e, quando, daí a um mês, deixou para sempre a igreja de St. Peter, em Neville Square, Albert Edward Foreman estabeleceu-se com tabacaria e venda de jornais. A sua mulher opinou que era uma imensa queda, depois de ter ele sido sacristão de St. Peter, mas Albert Edward respondeu que era preciso acompanhar as mudanças do tempo, a igreja não era o que fora, e dali em diante iria dar a César o que era de César. Saiu-se bem. Saiu-se tão bem que, decorrido um ano, aproximadamente, ocorreu-lhe que poderia abrir uma segunda tabacaria e entregá-la a alguém para exploração. Procurou outra rua longa que não tivesse nenhuma tabacaria e, quando a encontrou, corn uma frente para alugar, montou e abriu a nova casa. Também esta foi um sucesso. Refletiu em seguida que, se podia ter duas, podia ter meia dúzia, e começou a andar através de Londres; e, sempre que descobria uma rua longa que, não tendo tabacaria, tivesse um local apropriado para alugar, montava e abria um negócio do seu ramo. Ao fim de dez anos, fundara nada menos de dez tabacarias e ganhava muito dinheiro. Percorria-as pessoalmente todas as segundas-feiras, levantava os lucros da semana e depositava-os no banco.
Uma manhã, quando estava a recolher um maço de notas e urna pesada bolsa de moedas de prata, o caixa do banco disse-lhe que o gerente desejava falar-lhe.
Foi levado a um gabinete e recebido pelo gerente.
- Mr. Foreman, eu queria conversar consigo sobre o dinheiro que tem em depósito aqui. Sabe exatamente a quanto monta ?
- Exatamente, não, senhor; mas lenho uma ideia bem aproximada.
- à parte a entrada desta manhã, o seu depósito vai um pouco além de trinta mil libras. É uma soma muito grande para ficar em depósito, e ocorreu-me que lhe conviria investi-la.
- Não desejo arriscar-me, senhor. Sei que no banco está em segurança.
- Mas não precisa de ter qualquer preocupação. Dar-lhe-emos uma lista de títulos garantidos. Eles proporcionar-lhe-ão uma taxa de juro melhor do que é possível aqui.
Traços de preocupação instalaram-se nas feições bem marcadas de Mr.Forernan.
- -Nunca entendi nada de ações e dividendos, e teria de deixar tudo isso nas mãos do banco--disse ele. O gerente sorriu.
- Engarregar-nos-emos de tudo. O senhor teria apenas de assinar os papéis, na próxima vez que nos visitasse.
- Eu poderia fazer isso-disse Albert, com incerteza.---Mas como ia saber o que é que estava a assinar?
- Suponho que sabe ler - disse o gerente, um pouco rispidamente.
Mr. Forernan sorriu-lhe, apaziguador,
-Pois é isso, senhor. Não sei. Naturalmente parece engraçado, mas é o que é, não sei ler, e não sei escrever a não ser o meu nome, e só aprendi isso quando me estabeleci como comerciante.
O gerente ficou tão surpreendido que se empertigou na cadeira.
- Mas é a coisa mais extraordinária que já vi.
- O senhor vê, eu nunca tive a oportunidade de aprender, a não ser quando já era tarde demais, e aí, não quis. Sou algo teimoso.
O gerente olhava-o com espanto, como se ele fosse um monstro pré-histórico.
- Então quer dizer que desenvolveu esse importante comércio e juntou uma fortuna de trinta mil libras sem saber ler nem escrever? Meu Deus, que não seria o senhor agora, se tivesse aprendido a ler e a escrever ?
_ Isso eu posso dizer-lhe - respondeu Mr. Foreman, com um pequeno sorriso nas feições sempre aristocráticas. - Seria sacristão de St. Peter, em Neville Square.


domingo, 5 de abril de 2015

Semana da Leitura na Biblioteca do Castêlo

A semana da Leitura foi vivida fortemente em todo o Agrupamento. O programa cumpriu-se integralmente com atividades que decorreram em todas as escolas do Agrupamento, desde a escola Eb1/J1 do Castêlo da Maia à ESCM, passando pela EB 2,3.
Das atividades preparadas constaram o Concurso de Leitura, o Concurso de Ortografia, a Feira do Livro e o encontro com a escritora Raquel Fonseca, uma jovem a dar os seus primeiros passos.
Aqui fica o testemunho da dedicação e colaboração dedicadas por todos os elementos da nossa comunidade.

Uma panorâmica da Feira do Livro

Uma visão geral do Concurso de Leitura


Os vencedores do Concurso de Leitura em Português

Os vencedores do Concurso de Leitura em Língua Estrangeira, acompanhados da professora Teresa Barbosa


Um prémio merecido

A Raquel e o seu Segredo

segunda-feira, 30 de março de 2015

Escritor do mês: João Tordo


João Tordo, filho de Fernando Tordo, nasceu em Lisboa, a 28 de agosto de 1975, em pleno verão quente. Trata-se de um dos mais interessantes romancistas portugueses da atualidade, além de cronista, guionista e formador em ações dedicadas à escrita criativa.
Tendo-se formado em Filosofia e estudado Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e em Nova Iorque, publicou a sua primeira obra, O Livro dos Homens Sem Luz, em 2004, e venceu o Prémio José Saramago de 2009 com o romance As Três Vidas. Com obras publicadas em diversos países e diferentes línguas, foi igualmente finalista dos prémios Portugal Telecom, Fernando Namora, Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Europeu.
Publicou, até ao momento, sete romances e participou em cinco antologias.
As suas principais influências literárias provêm de autores como Edgar Allan Poe, Herman Melville, Fiódor Dostoiévski e Paul Auster.
Eis um conto deste autor: A Cidade Líquida...

Nos meus últimos dias em casa com a mulher que deixou de ser minha lembrei-me, em diversas ocasiões, de Roque dos Santos. Tínhamo-nos conhecido em Veneza, no princípio do Verão, num restaurante à beira da água. Eu apresentara-me descaradamente; ele, debruçado sobre esparguete com anchovas, respondera com educação. Depois passámos uma tarde inteira a beber e, no final, reflectindo nas coisas que com ele descobri, decidi separar-me. Essa história existe e está contada algures, num molho de papéis perdidos. Uma noite, deitado no sofá do escritório que eu improvisara no quarto desocupado que havíamos reservado para a chegada de um improvável filho, vi um longo documentário sobre os Beatles. O documentário durava quase oito horas; passei a noite acordado. Cheguei à conclusão de que Roque fazia-me lembrar George Harrison (ou talvez fosse George Harrison quem fizesse lembrar Roque, embora o músico tivesse uma bondade no olhar completamente ausente dos olhos do realizador). Concluí, mais tarde, que era a maneira de falar que me recordava de Roque: a voz ligeiramente arrastada e depois rematando as palavras mais importantes; também o formato das sobrancelhas e a expressão de alguma ausência. Na verdade, não havia nada de especial em Roque. Mas o que haveria de especial em Harrison? Roque era baixo, despenteado, carrancudo, tinha a barba sempre por fazer; era igual a milhares de homens que todos os dias passavam na rua. E, contudo, eu via-o em toda a parte, destacado, como uma coisa iluminada no meio de um corredor escuro. Via-o na esquina e no café; via-o no metropolitano e na barbearia. Um dia acordei de manhã e vi-o no espelho da minha casa de banho. O meu coração saltou e disse  um palavrão. Depois tapei a boca para não acordar a minha mulher. No espelho estava apenas eu, ou a minha imagem, porém, durante a fracção de um momento, esta parecera estar sobreposta por outra, um rosto sobre um rosto, ou o meu rosto sobre uma sombra que habitava o espelho do outro lado. Roque tinha estado ali durante um fugaz momento e, depois, desaparecera deixando um rasto sinistro de si mesmo. Numa outra noite fui a uma loja e comprei o filme Cidade Líquida. Revi-o sozinho, depois de jantar em pé, ao balcão da cozinha. A minha mulher não estava em casa, mas preferi vê-lo no escritório, de porta fechada. Pensei, enquanto via as imagens a preto e branco saturadas que apareciam no pequeno ecrã de uma televisão antiga, que a memória sofre distorções incompreensíveis mesmo para aqueles que se consideram sãos (como eu me julgava então) e que essas distorções reforçam apenas o sentimento de que a vida é uma ficção escrita diariamente na qual tudo se torce e retorce de acordo com a vontade de alguém. Alguém que não somos nós; que não podemos ser nós. Se o homem busca a verdade e no interior do homem habita a verdade, então no interior do homem existe também uma cortina que a oculta. O filme era completamente diferente do que eu recordava. Agora tinha a certeza (mas teria?) de que era o primeiro filme que vira com a minha mulher, pois só a promessa de um amor pode alterar de forma tão significativa uma evocação. José Duchamp e Teresa Worthless — que, no filme, chamavam-se José e Teresa — eram, de facto amantes, embora a inundação progressiva da cidade não fosse provocada pelo amor, mas sim pelo desamor. Há poucos diálogos, quase nenhuns: é uma história de fugas e perseguições. José segue Teresa pela cidade, uma Veneza desabitada tão diferente daquela que eu conhecera, e via-a encontrar-se com outro homem. Num beco escuro, enquanto José observa, Teresa põe-se de joelhos e faz sexo oral a esse homem, um estrangeiro de pele escura e barba cerrada. O chão está coberto de água e ouvimos o chapinhar dos joelhos dela e a respiração pesada do homem. Noutro momento, entra numa igreja branca e cospe sobre as imagens dos santos; com as unhas arranha a talha dourada. José, aparentemente religioso, senta-se ao fundo da nau e persigna-se. Noutras vezes, Teresa persegue José, sem sabermos o porquê da mudança de perspectiva. José entra em vários bares e bebe desesperadamente, como se tentasse anular a realidade; não é claro que o actor não esteja, de facto, a beber. Depois deambula ao acaso, caindo às esquinas e para cima dos transeuntes. Teresa observa-o à distância e não intervém, mesmo quando um homem sentado num degrau, no qual José tropeça pela segunda vez, se levanta e o agride com um soco violento. Essa cena termina com o actor num beco escuro e inundado, em tijolo de pedra, onde cai redondo e adormece, a água tapando-o até ao pescoço. No plano seguinte, José está a correr por uma rua estreitíssima e ouvem-se as vozes iradas de um grupo que o persegue: roubou uma carteira a um de três homens de aparência árabe. Teresa corre atrás do grupo, desesperada, como se fugisse de uma espécie de morte, mas as vozes evadem-se e desaparecem na noite aquática e perde-os de vista. Ficamos com ela, sozinha, no meio de uma praça deserta. José e Teresa: o único objectivo dos amantes parece ser magoarem-se e magoarem-se novamente, até o destino estar cumprido. E, novamente, a cortina que oculta a verdade. O final, ou destino, ou o único momento que parecem verdadeiramente partilhar, abraçados em torno do campanário de uma igreja enquanto a água toma a cidade, era também ele distinto da minha recordação. José e Teresa não se beijam. Ficam a olhar-se com alguma coisa parecida com desprezo, mas também com a dor demencial da perda: a perda do outro, a perda do tempo, a perda do tempo de vida. Deixei o genérico passar até ao final mas devo ter adormecido antes de terminar porque, de madrugada, despertei com a chuva e o restolho de um ecrã ligado sem qualquer sinal à Terra. Encontrei um apartamento na Baixa da cidade. Era um quinto andar na Rua dos Correeiros, umas águas-furtadas com cheiro a mofo e a gás canalizado. Quando disse à senhoria a minha profissão ela olhou-me com suspeita. Professor de quê? De Filosofia. E quer vir para aqui? Quero. Vai-se a ver e quer é estar sozinho com as suas filosofias. A preocupação da senhora, praticamente uma anciã, era compreensível. O prédio parecia quase desabitado; à noite, a Baixa variava entre um silêncio próprio dos túmulos e os gritos de dor existencial de um ou outro bêbedo desgovernado que rompiam o negrume das minhas noites pombalinas. A porta do prédio era gigante, quase desmesurada para a força de um homem: tinha uma chave enorme, grande como um badalo, como se guardasse a masmorra de um dragão, que fazia rodar uma pesada fechadura. A porta chiava e chiava. Não havia elevador, e as escadas eram bafientas e esburacadas. Havia muito tempo que aquele prédio morrera, mas era como um espírito ignorante da sua própria morte. Só tinha um vizinho. Ele vivia no andar por cima do meu e tomava vários banhos de imersão por dia. Ou, pelo menos, era isso que eu presumira. Ao final da tarde, quando a cidade escurecia de tristeza, a água começava a correr e corria durante uma ou duas horas, talvez mais. Depois escutava o gotejar incessante da água nos canos. Pingava a noite toda e penetrava- -me os sonhos. Uma noite, depois de eu chegar a casa da escola, prestes a matar Espinoza e a amaldiçoar Kant, tocaram à porta. Levantei-me do sofá onde adormecia um sonho proscrito e fui abrir. À porta estava um mensageiro que me entregou um telegrama cantado. Enquanto o homem dançava e batia palmas não pude deixar de imaginar o que seria ter aquela profissão; deu-me vontade de chorar. O recado era de Roque dos Santos, convidando-me para uma projecção em sua casa. Não fazia ideia de como saberia ele onde eu viva; também não o perguntei ao mensageiro, que parecia um rapaz à beira do abismo. A mensagem convidava-me para a projecção de um filme em casa do realizador. Cheguei mais cedo do que devia. Toquei à campainha. Roque abriu a porta em cuecas, coçando com a mão direita o peito encovado, o cabelo comprido todo despenteado. Harrison, pensei. Disse-me para entrar e desapareceu por um corredor escuro. Fui na direcção da luz. Embora fosse noite lá fora, a sala, iluminada por um ecrã gigante no qual passavam imagens desfocadas de ruas, imitava a claridade de uma manhã de Inverno. Havia uma mulher sentada num sofá. Apresentei-me e, depois, julguei reconhecê-la, embora somente os olhos me fossem familiares. Lembrei-me de uma praça deserta e do chapinhar da água: eram os olhos de Teresa Worthless. Contudo, tudo o resto mudara nela, como se o tempo fosse uma onda catastrófica de detritos que cortam e rasgam; o rosto, outrora belo, era agora uma máscara de crueldade, apertada por uma maquilhagem excessiva; os lábios gritavam vermelho, as comissuras gretadas; o nariz, como sempre sucede com a idade, tornara-se mais pequeno e frágil, a cartilagem parecendo querer furar a pele; o cabelo era palha negra e armada, sem sinal de movimento. Mas os olhos permaneciam os mesmos. Fiz umas quantas perguntas mas a mulher limitou-se a acender um cigarro atrás do outro, apagando as beatas manchadas de batom num cinzeiro que mantinha ao colo. Perguntei-me por Roque, mas não havia sinal dele. Cedo a casa começou a encher-se de gente. Ninguém abria a porta e também ninguém tocava: bastava empurrar, a porta encontrava-se aberta. Um homem gordo e calvo trouxe um projector e, depois de o montar, começou a passar um filme de Roque dos Santos que se chamava O Homem da Linha Eléctrica. O filme era a cores, mas as cores estavam desbotadas, quase mortas; folhas decadentes no Outono, sem futuro. Não tinha história. Limitava-se a seguir o dia-a-dia de um homem que subia aos postes de electricidade e manipulava os fios com várias ferramentas. Depois ia para casa, jantava sozinho, dormia e, no dia seguinte, tornava a fazer o mesmo. Era difícil dizer se o filme era ficção ou um documentário. Ninguém parecia prestar atenção à projecção. A sala estava cheia, quase demasiado cheia, de gente mais nova do que eu, certamente mais nova do que Roque dos Santos. Ninguém parecia importar-se com a ausência do anfitrião: bebiam das garrafas e conversavam muito alto, abafando os sons minimalistas do filme. Procurei por Teresa Worthless no sofá e não a encontrei; presumi que, com a chegada dos convivas, tivesse decidido partir. Quando dei por mim estava encostado à parede, espremido por corpos, procurando desesperadamente não entornar um copo de cerveja. As pessoas não paravam de chegar e, a certa altura, vi uma rapariga desmaiar do sufoco. Em redor dela abriu-se uma clareira e, depois, foi levada em ombros para a rua. Senti que não conseguia respirar: uma mulher muito grande, vestida de veludo púrpura, apertava-me como se eu não existisse ou fosse um pedaço de mobília. A muito custo atravessei a sala. Cheirei perfumes nauseabundos e o suor dos homens. No ecrã, a personagem da linha eléctrica despertava. Avancei na direcção do corredor. Quando entrei nele, o barulho ensurdecedor da sala pareceu desvanecer-se. A escuridão era completa. Tacteei as paredes frias; a sensação, na ponta dos dedos, foi reconfortante. Encontrei uma porta e abri-a. Dava para um quarto na penumbra; através de uma janela alta entrava a luz distante de um candeeiro de rua. Vi uma cama desarrumada e alguns livros espalhados pelo chão. Chamei: Roque. Estou aqui, respondeu ele. A voz surgiu da direcção do armário. Aproximei-me: as portas estavam fechadas. Dentro do armário? Sim, disse a voz. O que estás aí a fazer? Estou escondido, respondeu ele. A ver se me encontravam! Encontrei-te, disse-lhe, sentindo-me ridículo. E o filme?, perguntou ele. Uma linha de fumo emergiu do interstício das portas; Roque fumava lá dentro. Não consegui ver todo. Está muita gente. Canalhas, resmungou. Encontrei a Teresa, disse-lhe. Mas foi-se embora. Quem? Uma nova linha de fumo emergiu do interior do armário; aproximei-me e respirei-a. A actriz de Cidade Líquida. A Teresa Worthless, insisti. Uma batida forte e seca na madeira do armário fez-me dar um salto para trás. Idiota, disse ele. A Teresa morreu há mais de dez anos. Cancro do pulmão. Desculpa, lamentei. Era uma mulher muito parecida com ela. Estava sentada na sala quando cheguei. Não havia ninguém na sala quando chegaste. Então era um fantasma. Então era um fantasma, concordou ele.
A porta do armário abriu-se de repente e, do interior, surgiu a mão de Roque dos Santos. Levei um estalo com alguma força, uma chapada de mão aberta que me deixou atordoado durante uns segundos. A porta do armário fechou-se imediatamente a seguir e, poucos segundos depois, Roque dos Santos ressonava no interior. De repente senti-me muito cansado, como se tivesse atravessado um deserto ou pernoitado num campo de batalha. Sentei-me no chão, de costas para o armário, observando a luz do cande-eiro de rua que, lá fora, morria de intermitência. Pensei, sem saber porquê, na minha mulher. Pensei que, tal como Teresa, também ela era uma ilusão de realidade, uma inconsistência; um equívoco no frágil tecido das coisas. Os sons desapareceram todos e fez-se silêncio. Uma brisa entrou pela janela aberta e, pela primeira vez em muito tempo, senti frio. O Verão chegava ao fim. Fechei os olhos e adormeci. Quando acordei ainda era noite: pé ante pé, saí do quarto, escutando ainda o ressonar distante do outro, atravessei o corredor escuro, desembarquei na sala que estava vazia e cheirava a fumo, a álcool e a suor. O projector permanecia ligado, a brancura projectada na parede tremia. Quando saí para a rua começou a chover, uma chuva fria que anunciava uma estação de melancolia. Cidade Líquida, ocorreu-me, e sorri. Era a minha estação preferida.