segunda-feira, 30 de março de 2015

Escritor do mês: João Tordo


João Tordo, filho de Fernando Tordo, nasceu em Lisboa, a 28 de agosto de 1975, em pleno verão quente. Trata-se de um dos mais interessantes romancistas portugueses da atualidade, além de cronista, guionista e formador em ações dedicadas à escrita criativa.
Tendo-se formado em Filosofia e estudado Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e em Nova Iorque, publicou a sua primeira obra, O Livro dos Homens Sem Luz, em 2004, e venceu o Prémio José Saramago de 2009 com o romance As Três Vidas. Com obras publicadas em diversos países e diferentes línguas, foi igualmente finalista dos prémios Portugal Telecom, Fernando Namora, Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Europeu.
Publicou, até ao momento, sete romances e participou em cinco antologias.
As suas principais influências literárias provêm de autores como Edgar Allan Poe, Herman Melville, Fiódor Dostoiévski e Paul Auster.
Eis um conto deste autor: A Cidade Líquida...

Nos meus últimos dias em casa com a mulher que deixou de ser minha lembrei-me, em diversas ocasiões, de Roque dos Santos. Tínhamo-nos conhecido em Veneza, no princípio do Verão, num restaurante à beira da água. Eu apresentara-me descaradamente; ele, debruçado sobre esparguete com anchovas, respondera com educação. Depois passámos uma tarde inteira a beber e, no final, reflectindo nas coisas que com ele descobri, decidi separar-me. Essa história existe e está contada algures, num molho de papéis perdidos. Uma noite, deitado no sofá do escritório que eu improvisara no quarto desocupado que havíamos reservado para a chegada de um improvável filho, vi um longo documentário sobre os Beatles. O documentário durava quase oito horas; passei a noite acordado. Cheguei à conclusão de que Roque fazia-me lembrar George Harrison (ou talvez fosse George Harrison quem fizesse lembrar Roque, embora o músico tivesse uma bondade no olhar completamente ausente dos olhos do realizador). Concluí, mais tarde, que era a maneira de falar que me recordava de Roque: a voz ligeiramente arrastada e depois rematando as palavras mais importantes; também o formato das sobrancelhas e a expressão de alguma ausência. Na verdade, não havia nada de especial em Roque. Mas o que haveria de especial em Harrison? Roque era baixo, despenteado, carrancudo, tinha a barba sempre por fazer; era igual a milhares de homens que todos os dias passavam na rua. E, contudo, eu via-o em toda a parte, destacado, como uma coisa iluminada no meio de um corredor escuro. Via-o na esquina e no café; via-o no metropolitano e na barbearia. Um dia acordei de manhã e vi-o no espelho da minha casa de banho. O meu coração saltou e disse  um palavrão. Depois tapei a boca para não acordar a minha mulher. No espelho estava apenas eu, ou a minha imagem, porém, durante a fracção de um momento, esta parecera estar sobreposta por outra, um rosto sobre um rosto, ou o meu rosto sobre uma sombra que habitava o espelho do outro lado. Roque tinha estado ali durante um fugaz momento e, depois, desaparecera deixando um rasto sinistro de si mesmo. Numa outra noite fui a uma loja e comprei o filme Cidade Líquida. Revi-o sozinho, depois de jantar em pé, ao balcão da cozinha. A minha mulher não estava em casa, mas preferi vê-lo no escritório, de porta fechada. Pensei, enquanto via as imagens a preto e branco saturadas que apareciam no pequeno ecrã de uma televisão antiga, que a memória sofre distorções incompreensíveis mesmo para aqueles que se consideram sãos (como eu me julgava então) e que essas distorções reforçam apenas o sentimento de que a vida é uma ficção escrita diariamente na qual tudo se torce e retorce de acordo com a vontade de alguém. Alguém que não somos nós; que não podemos ser nós. Se o homem busca a verdade e no interior do homem habita a verdade, então no interior do homem existe também uma cortina que a oculta. O filme era completamente diferente do que eu recordava. Agora tinha a certeza (mas teria?) de que era o primeiro filme que vira com a minha mulher, pois só a promessa de um amor pode alterar de forma tão significativa uma evocação. José Duchamp e Teresa Worthless — que, no filme, chamavam-se José e Teresa — eram, de facto amantes, embora a inundação progressiva da cidade não fosse provocada pelo amor, mas sim pelo desamor. Há poucos diálogos, quase nenhuns: é uma história de fugas e perseguições. José segue Teresa pela cidade, uma Veneza desabitada tão diferente daquela que eu conhecera, e via-a encontrar-se com outro homem. Num beco escuro, enquanto José observa, Teresa põe-se de joelhos e faz sexo oral a esse homem, um estrangeiro de pele escura e barba cerrada. O chão está coberto de água e ouvimos o chapinhar dos joelhos dela e a respiração pesada do homem. Noutro momento, entra numa igreja branca e cospe sobre as imagens dos santos; com as unhas arranha a talha dourada. José, aparentemente religioso, senta-se ao fundo da nau e persigna-se. Noutras vezes, Teresa persegue José, sem sabermos o porquê da mudança de perspectiva. José entra em vários bares e bebe desesperadamente, como se tentasse anular a realidade; não é claro que o actor não esteja, de facto, a beber. Depois deambula ao acaso, caindo às esquinas e para cima dos transeuntes. Teresa observa-o à distância e não intervém, mesmo quando um homem sentado num degrau, no qual José tropeça pela segunda vez, se levanta e o agride com um soco violento. Essa cena termina com o actor num beco escuro e inundado, em tijolo de pedra, onde cai redondo e adormece, a água tapando-o até ao pescoço. No plano seguinte, José está a correr por uma rua estreitíssima e ouvem-se as vozes iradas de um grupo que o persegue: roubou uma carteira a um de três homens de aparência árabe. Teresa corre atrás do grupo, desesperada, como se fugisse de uma espécie de morte, mas as vozes evadem-se e desaparecem na noite aquática e perde-os de vista. Ficamos com ela, sozinha, no meio de uma praça deserta. José e Teresa: o único objectivo dos amantes parece ser magoarem-se e magoarem-se novamente, até o destino estar cumprido. E, novamente, a cortina que oculta a verdade. O final, ou destino, ou o único momento que parecem verdadeiramente partilhar, abraçados em torno do campanário de uma igreja enquanto a água toma a cidade, era também ele distinto da minha recordação. José e Teresa não se beijam. Ficam a olhar-se com alguma coisa parecida com desprezo, mas também com a dor demencial da perda: a perda do outro, a perda do tempo, a perda do tempo de vida. Deixei o genérico passar até ao final mas devo ter adormecido antes de terminar porque, de madrugada, despertei com a chuva e o restolho de um ecrã ligado sem qualquer sinal à Terra. Encontrei um apartamento na Baixa da cidade. Era um quinto andar na Rua dos Correeiros, umas águas-furtadas com cheiro a mofo e a gás canalizado. Quando disse à senhoria a minha profissão ela olhou-me com suspeita. Professor de quê? De Filosofia. E quer vir para aqui? Quero. Vai-se a ver e quer é estar sozinho com as suas filosofias. A preocupação da senhora, praticamente uma anciã, era compreensível. O prédio parecia quase desabitado; à noite, a Baixa variava entre um silêncio próprio dos túmulos e os gritos de dor existencial de um ou outro bêbedo desgovernado que rompiam o negrume das minhas noites pombalinas. A porta do prédio era gigante, quase desmesurada para a força de um homem: tinha uma chave enorme, grande como um badalo, como se guardasse a masmorra de um dragão, que fazia rodar uma pesada fechadura. A porta chiava e chiava. Não havia elevador, e as escadas eram bafientas e esburacadas. Havia muito tempo que aquele prédio morrera, mas era como um espírito ignorante da sua própria morte. Só tinha um vizinho. Ele vivia no andar por cima do meu e tomava vários banhos de imersão por dia. Ou, pelo menos, era isso que eu presumira. Ao final da tarde, quando a cidade escurecia de tristeza, a água começava a correr e corria durante uma ou duas horas, talvez mais. Depois escutava o gotejar incessante da água nos canos. Pingava a noite toda e penetrava- -me os sonhos. Uma noite, depois de eu chegar a casa da escola, prestes a matar Espinoza e a amaldiçoar Kant, tocaram à porta. Levantei-me do sofá onde adormecia um sonho proscrito e fui abrir. À porta estava um mensageiro que me entregou um telegrama cantado. Enquanto o homem dançava e batia palmas não pude deixar de imaginar o que seria ter aquela profissão; deu-me vontade de chorar. O recado era de Roque dos Santos, convidando-me para uma projecção em sua casa. Não fazia ideia de como saberia ele onde eu viva; também não o perguntei ao mensageiro, que parecia um rapaz à beira do abismo. A mensagem convidava-me para a projecção de um filme em casa do realizador. Cheguei mais cedo do que devia. Toquei à campainha. Roque abriu a porta em cuecas, coçando com a mão direita o peito encovado, o cabelo comprido todo despenteado. Harrison, pensei. Disse-me para entrar e desapareceu por um corredor escuro. Fui na direcção da luz. Embora fosse noite lá fora, a sala, iluminada por um ecrã gigante no qual passavam imagens desfocadas de ruas, imitava a claridade de uma manhã de Inverno. Havia uma mulher sentada num sofá. Apresentei-me e, depois, julguei reconhecê-la, embora somente os olhos me fossem familiares. Lembrei-me de uma praça deserta e do chapinhar da água: eram os olhos de Teresa Worthless. Contudo, tudo o resto mudara nela, como se o tempo fosse uma onda catastrófica de detritos que cortam e rasgam; o rosto, outrora belo, era agora uma máscara de crueldade, apertada por uma maquilhagem excessiva; os lábios gritavam vermelho, as comissuras gretadas; o nariz, como sempre sucede com a idade, tornara-se mais pequeno e frágil, a cartilagem parecendo querer furar a pele; o cabelo era palha negra e armada, sem sinal de movimento. Mas os olhos permaneciam os mesmos. Fiz umas quantas perguntas mas a mulher limitou-se a acender um cigarro atrás do outro, apagando as beatas manchadas de batom num cinzeiro que mantinha ao colo. Perguntei-me por Roque, mas não havia sinal dele. Cedo a casa começou a encher-se de gente. Ninguém abria a porta e também ninguém tocava: bastava empurrar, a porta encontrava-se aberta. Um homem gordo e calvo trouxe um projector e, depois de o montar, começou a passar um filme de Roque dos Santos que se chamava O Homem da Linha Eléctrica. O filme era a cores, mas as cores estavam desbotadas, quase mortas; folhas decadentes no Outono, sem futuro. Não tinha história. Limitava-se a seguir o dia-a-dia de um homem que subia aos postes de electricidade e manipulava os fios com várias ferramentas. Depois ia para casa, jantava sozinho, dormia e, no dia seguinte, tornava a fazer o mesmo. Era difícil dizer se o filme era ficção ou um documentário. Ninguém parecia prestar atenção à projecção. A sala estava cheia, quase demasiado cheia, de gente mais nova do que eu, certamente mais nova do que Roque dos Santos. Ninguém parecia importar-se com a ausência do anfitrião: bebiam das garrafas e conversavam muito alto, abafando os sons minimalistas do filme. Procurei por Teresa Worthless no sofá e não a encontrei; presumi que, com a chegada dos convivas, tivesse decidido partir. Quando dei por mim estava encostado à parede, espremido por corpos, procurando desesperadamente não entornar um copo de cerveja. As pessoas não paravam de chegar e, a certa altura, vi uma rapariga desmaiar do sufoco. Em redor dela abriu-se uma clareira e, depois, foi levada em ombros para a rua. Senti que não conseguia respirar: uma mulher muito grande, vestida de veludo púrpura, apertava-me como se eu não existisse ou fosse um pedaço de mobília. A muito custo atravessei a sala. Cheirei perfumes nauseabundos e o suor dos homens. No ecrã, a personagem da linha eléctrica despertava. Avancei na direcção do corredor. Quando entrei nele, o barulho ensurdecedor da sala pareceu desvanecer-se. A escuridão era completa. Tacteei as paredes frias; a sensação, na ponta dos dedos, foi reconfortante. Encontrei uma porta e abri-a. Dava para um quarto na penumbra; através de uma janela alta entrava a luz distante de um candeeiro de rua. Vi uma cama desarrumada e alguns livros espalhados pelo chão. Chamei: Roque. Estou aqui, respondeu ele. A voz surgiu da direcção do armário. Aproximei-me: as portas estavam fechadas. Dentro do armário? Sim, disse a voz. O que estás aí a fazer? Estou escondido, respondeu ele. A ver se me encontravam! Encontrei-te, disse-lhe, sentindo-me ridículo. E o filme?, perguntou ele. Uma linha de fumo emergiu do interstício das portas; Roque fumava lá dentro. Não consegui ver todo. Está muita gente. Canalhas, resmungou. Encontrei a Teresa, disse-lhe. Mas foi-se embora. Quem? Uma nova linha de fumo emergiu do interior do armário; aproximei-me e respirei-a. A actriz de Cidade Líquida. A Teresa Worthless, insisti. Uma batida forte e seca na madeira do armário fez-me dar um salto para trás. Idiota, disse ele. A Teresa morreu há mais de dez anos. Cancro do pulmão. Desculpa, lamentei. Era uma mulher muito parecida com ela. Estava sentada na sala quando cheguei. Não havia ninguém na sala quando chegaste. Então era um fantasma. Então era um fantasma, concordou ele.
A porta do armário abriu-se de repente e, do interior, surgiu a mão de Roque dos Santos. Levei um estalo com alguma força, uma chapada de mão aberta que me deixou atordoado durante uns segundos. A porta do armário fechou-se imediatamente a seguir e, poucos segundos depois, Roque dos Santos ressonava no interior. De repente senti-me muito cansado, como se tivesse atravessado um deserto ou pernoitado num campo de batalha. Sentei-me no chão, de costas para o armário, observando a luz do cande-eiro de rua que, lá fora, morria de intermitência. Pensei, sem saber porquê, na minha mulher. Pensei que, tal como Teresa, também ela era uma ilusão de realidade, uma inconsistência; um equívoco no frágil tecido das coisas. Os sons desapareceram todos e fez-se silêncio. Uma brisa entrou pela janela aberta e, pela primeira vez em muito tempo, senti frio. O Verão chegava ao fim. Fechei os olhos e adormeci. Quando acordei ainda era noite: pé ante pé, saí do quarto, escutando ainda o ressonar distante do outro, atravessei o corredor escuro, desembarquei na sala que estava vazia e cheirava a fumo, a álcool e a suor. O projector permanecia ligado, a brancura projectada na parede tremia. Quando saí para a rua começou a chover, uma chuva fria que anunciava uma estação de melancolia. Cidade Líquida, ocorreu-me, e sorri. Era a minha estação preferida.

domingo, 15 de março de 2015

Um poeta, um poema - 4


O norte-americano Ezra Pound nasceu em 1885 e faleceu em 1972, tendo sido um dos grandes nomes do Modernismo, nomeadamente da corrente Imagística, procedente da poesia clássica da China e do Japão, corrente essa marcada pela contenção, a clareza e a precisão. O seu maior pecado terá sido o apoio concedido a Benito Mussolini e mesmo a Hitler, na sequência da desilusão sofrida com a carnificina da Grande Guerra. Por outro lado, amigo dos seus amigos, desempenhou um importante papel no trazer a público de personalidades marcantes da vida literária como TS Eliot, James Joyce, Robert Frost e Ernest Hemingway. 
Quando as forças aliadas desembarcaram em Itália, em 1945, Pound foi acusado de traição e detido num campo de prisioneiros em Pisa, nomeadamente na solitária durante semanas, na sequência do que viria a sofrer de um forte esgotamento. Tido como inimputável, logo não tendo sido submetido a julgamento, acabaria por passar os doze anos subsequentes no hospital psiquiátrico de St. Elizabeth, em Washington D.C.. 
Acerca dele, Hemingway escreveu: "O melhor da escrita de Pound - que se encontra nos Cantos - durará enquanto houver literatura à face da terra".  Foi precisamente pelos Cantos de Pisa, cuja escrita iniciou durante o seu encarceramento, que a Livraria do Congresso lhe outorgou o Prémio Bollingen, em 1949. 
Apenas viria a ser libertado em 1958 em resultado de uma campanha desenvolvida pela comunidade literária e, em consequência das suas ideias políticas, manteve-se sempre um autor controverso. Regressou a Itália e lá viveu até ao momento da sua partida deste mundo. Legou-nos mais de setenta obras.
Em homenagem a quem foi um grande poeta, independentemente dos seus ideais políticos, trazemos-vos hoje o poema Saudação, numa tradução do poeta brasileiro Mário Faustino, falecido em 1932, no Peru, em resultado de um desastre de aviação, com apenas 32 anos de idade:

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com as suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto os seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado os seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A love letter

Publicamos, de seguida, a carta de amor vencedora do Concurso de S. Valentim no escalão de alunos. Um excelente trabalho de Ricardo Rodrigues!

My Anima
How will I ever describe my affection for you? Those heavy feelings in my chest, the nervousness when I’m around you, the anxiety crossing with fear. The confusion in my mind, the insomnia you cause me and the unconscious smile whenever I see you. An infinite line of emotions, longer than time itself.

I am well aware that love is meant to be like two free birds. I am sorry though – I will take what I want and that is your heart. Just give yourself to me for a single day – I would take the heat of my body and surround you with my warm embrace, so you will know then how much the sun longs for the moon.

Please never forget that I, as clumsy as I am, will cherish and take good care of your heart, because I know that it is fragile as you are. Because I know your insecurities and all that makes you happy. The way your body gently sways when you are walking, the soft curves of your mouth.

If you give me a pen and paper I will write for you all day and night; give me a microphone and I will sing until my throat cannot hold longer. Then will my very own heart sing the infinite things that I would do for you.
Please, let me tell you this:
I do not know the reason behind by writing down this letter, since I can’t even speak a word to you without trembling… Because I am a coward and I cannot make these words come out of my lips.

I hope you can understand my perfect catastrophic rollercoaster of feelings, but above all that, my waves, my deep ocean of pink water with roses floating around like water lilies. And as I stretch my arm, hold my hand, and let us dive in to the depths.
Your Animus,
                            Miruno

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Escritor do mês: Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade, poeta, contista e cronista brasileiro ligado à corrente modernista, nasceu em Itabira, pequena cidade do estado de Minas Gerais, em 1902 e faleceu no Rio de Janeiro em 1987. Muitos o consideram a principal influência poética da poesia brasileira do século XX.
Licenciado em Farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais, cedo fundou, em conjunto com outros companheiros, a publicação A Revista, destinada a divulgar o Modernismo no Brasil. O seu primeiro livro, de entre trinta e três livros originais de poemas, quatro destinados à infância e dezanove obras em prosa, foi publicado em 1930, com o título Alguma Poesia.
Com a sua esposa, Dolores Dutra de Morais, teve dois filhos: Carlos Flávio e Maria Julieta. O primeiro viveu apenas meia hora, tendo-lhe sido dedicado o poema O que viveu meia hora, presente em Poesia Completa.
Embora tenha sido sempre funcionário público, nunca deixou de escrever e foi retratado no cinema e na televisão no filme Poeta de Sete Faces, de 2002, assim como na minissérie JK, de 2006, teve a sua figura impressa nas notas de cinquenta cruzados novos, que circularam no Brasil entre 1988 e 1990 e encontra-se representado em diversas esculturas, nomeadamente em Porto Alegre, na praia de Copacabana do Rio de Janeiro e em Itabira, a sua cidade natal, num memorial.
Em 1987, alguns meses antes do seu falecimento, a escola carioca de samba A Mangueira homenageou-o com o enredo O Reino das Palavras, com que se sagrou campeã do carnaval do Rio nesse ano.
Carlos Drummond faleceu a 17 de agosto, precisamente doze dias após a morte da sua filha. 
Da extensa obra do autor, escolhemos Poema de sete faces:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

São Valentim


A lenda de São Valentim, que viria a dar origem ao Dia dos Namorados, data da Roma Clássica, mais precisamente da governação de Cláudio II, imperador que decidiu proibir a realização de casamentos, de modo a conseguir juntar um exército maior e mais poderoso.
Houve, ainda assim, um bispo romano, de nome Valentim, que, contrariando as ordens do governante, decidiu continuar a celebrar casamentos secretamente. Acabou, no entanto, por ser descoberto e condenado à morte.
Encerrado no seu cárcere, recebia, por parte de muitos jovens, flores e mensagens nas quais estes afirmavam continuar a acreditar no amor. Uma das jovens que assim fazia dava pelo nome de Artérias e era filha do carcereiro. Após várias tentativas e muita insistência, conseguiu que o pai lhe permitisse visitar Valentim. Os dois apaixonaram-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a vista. 
Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270, mas o seu nome perdurou na celebração do Dia dos Namorados, ainda que, desde 1799, em resultado de a Igreja considerar não haver provas cabais da existência do santo, esta tenha deixado de celebrar oficialmente a data.

Entretanto e como não poderia deixar de ser, a nossa escola e a sua biblioteca levaram a cabo um Concurso de Cartas de Amor, como forma de comemorar a data. Eis os vencedores, a quem os prémios serão entregues no próximo dia 17 de março, na Biblioteca, na abertura do Concurso de Leitura:

Escalão alunos: Ricardo Rodrigues, número 18, 11º C

Escalão professores: Rosalina Moura

Escalão funcionários: Sandra Cardoso

A todos, os nossos parabéns.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um poeta, um poema - 3


Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das mais importantes figuras da poesia portuguesa do século XX, nasceu no Porto em 1919 e veio a falecer em Lisboa em 2004, encontrando-se no Panteão Nacional desde 2014.
Geralmente conhecida nas nossas escolas pelos seus contos infantis (oito ao todo), publicou igualmente 22 obras de poesia, 2 livros de contos, teatro e ensaios, para além de ter sido tradutora de Dante e de Shakespeare.
Sophia foi uma forte detratora do regime salazarista e da hipocrisia social, o que é manifesto em muitos dos seus poemas. Condecorada por três vezes, foi ainda ganhadora de diversos prémios literários, dos quais destacamos o Pémio Camões, em 1998, e o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
Homenageamo-la hoje com um dos seus mais emblemáticos poemas: Porque...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Escritor do mês: Cesário Verde


Filho de pai lavrador e comerciante, Cesário Verde nasceu em Lisboa em 1855 e faleceu no Lumiar em 1886, ainda muito jovem, vítima da tuberculose que o acometeu a partir de 1877, doença para a qual já perdera um irmão e uma irmã. 
Na sua poesia, Cesário fez uso de técnicas impressionistas, retratando sobretudo a cidade (fonte de todos os males, doenças e vícios) e o campo (local de pureza, de claridade, de vitalidade e beleza), tendo-se expressado de um modo imagístico e natural, evitando, assim, as armadilhas do lirismo tradicional. Pode afirmar-se que Cesário foi um percursor do que viria a ser a nossa arte poética no século XX.
Incompreendido no seu tempo, defensor das classes trabalhadoras (ele, que era um burguês) não chegou a ver publicada a sua poesia (aliás, rejeitada várias vezes pelas publicações da época, facto de que chega a queixar-se na sua obra), a qual foi reunida e editada pelo seu grande amigo Silva Pinto, que conhecera durante os poucos meses durante os quais frequentou o Curso Superior de Letras. O Livro de Cesário Verde, assim ficou conhecida a compilação da sua poesia, foi publicado apenas em 1901, quinze anos após a o derradeiro adeus do poeta.
Os seus poemas são, frequentemente, longos e muito detalhados, pelo que optamos por publicar o poema Vaidosa, no qual retrata a mulher citadina, fria e sem sentimentos, por oposição à mulher simples, pura e alegre do campo...

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém, eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.

E não resistimos a acrescentar um pequeno poema de Alberto Caeiro, um dos principais heterónimos de Fernando Pessoa, precisamente denominado Cesário Verde. Nessa homenagem, Caeiro recorda o poeta como alguém que foi infeliz na cidade e teria sido feliz no campo. Bonito...

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai
andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...